<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss'><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044</id><updated>2009-10-23T19:34:21.606-02:00</updated><title type='text'>Comentários Abertos</title><subtitle type='html'>Não é um blog: é Sorvete de Ego</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default?start-index=26&amp;max-results=25'/><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>200</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-3040147343813740983</id><published>2009-10-07T23:49:00.000-03:00</published><updated>2009-10-07T23:52:37.417-03:00</updated><title type='text'>O Rei do Penico</title><content type='html'>A vida era uma linda sucessão de descobertas divertidas até o momento da descoberta não-divertida que me mudou a vida: do alto do meu penico, eu dominava o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só podia, só assim se explicava a aflição da minha família para que eu saísse dali: minha mãe, meu pai, minha avó, todos suplicantes, ajoelhados, falando "Vamos lá, campeão, você consegue! É só empurrar!". Isso no começo, lógico. Depois de alguns minutos de insistência, porém, não suportavam mais o meu olhar condescendente de quem manda, e tentavam usar de tirania. "Se você não fizer agora e quiser vir depois, eu não te trago!".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bobagem deles. Era eu quem fazia as regras do jogo. Não me levavam depois? Tudo bem. Mas no momento que me esquecessem sem fralda, era a hora do ataque. Bombardeio químico. Não me importava em nada com o trabalho que eles (eles, o inimigo) teriam para lavar minhas calçolas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poder traz desafios, meus caros. Mas eu sempre fui meio Napoleão do meu bumbum, e conquistava outros territórios. Não me bastava o penico. Eu queria o mundo. O tapete de sala. O vaso de plantas na sala de jantar. Nenhuma terra era impossível para o meu domínio. Só não atingi outros continentes por uma questão de logística.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliás, talvez não tenha conquistado outros continentes por uma questão de incontinência, mesmo. Quem diria que contrair o esfíncter seria tão difícil. Tudo bem, eu sou persistente. Mamãe implora para que eu vá. Não vou. Um bom governante sabe resistir aos apelos do povo, quando estes não lhe são interessantes. Com toda a segurança do mundo, eu seguro.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É difícil a ponto de deixar escapar uns punzinhos, e quem não deixa? Mas eu no máximo disfarço com um sorriso besta - não tanto pelo pum, mais pelo rosto esperançoso de mamãe, que esperava uma manifestação mais concreta do meu poderio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas tudo na vida muda e, talvez por alguma atitude relapsa no meu governo, fui transferido para o vaso sanitário. Pensei ter sido promovido, mas, que nada. É um reino de vários reis. Sou um mero vassalo do meu intestino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada que tenha me irritado muito, até o dia em que mandaram que eu parasse de brincar com meu cetro na frente das visitas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-3040147343813740983?l=comentariosabertos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/3040147343813740983/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=3040147343813740983&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/3040147343813740983'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/3040147343813740983'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/10/o-rei-do-penico.html' title='O Rei do Penico'/><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='05712358080031572323'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-579082868019638486</id><published>2009-09-11T16:18:00.000-03:00</published><updated>2009-09-11T16:19:15.630-03:00</updated><title type='text'>Diesel</title><content type='html'>Era um daqueles momentos em que você percebe que tem 19 anos e se sente velho. E se sente culpado por se sentir velho, sabendo que em cinquenta anos você vai olhar pra trás e rir do sentimento de agora. E talvez se sentir muito mais jovem do que você está se sentindo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pior de estar num momento ridículo é estar consciente do ridículo do momento. É como elevar o ridículo ao quadrado. Aí você apalpa o ridículo como se ele estivesse completamente fora de você, como se isso lhe excluísse dele, e tenta passar adiante ao próximo momento de sensatez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que naquele dia, ele apalpou o ridículo, sentiu como o ridículo estava maduro, e tascou-lhe uma mordida. O fruto da árvore do conhecimento do que é ridículo. Naquele momento, apercebeu-se de como o ridículo era suculento. Se rendeu ao momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Juntou umas poucas coisas e correu pra beira da estrada. Dedo esticado, mão balançando. Sabe por quê os caroneiros balançam a mão tão vigorosamente? Para não perceberem que tremem. O dedo esticado pra apontar o caminho que se finge saber. Ele não se dava conta do nervoso. Sabia do passo que estava dando. Sabia que podia ser assaltado, seqüestrado, assassinado. Estuprado não, porque no cu não passava uma agulha. Sabia que podia dar tudo errado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas havia uma neblina de calma na sua vista que permitia seguir com o plano de viajar sem planos. Não precisou esperar muito: logo um caminhão encostou, com seu motorista barbudo de braço esquerdo vermelhíssimo, o olhar de quem não sabe o que é dormir direito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embarcou. Caroneiro inexperiente, pensou que precisava puxar assunto. Ainda não tinha se acostumado com a música da estrada, com a percussão dos pneus pulando nos buracos do asfalto. Com a poesia do cheiro de óleo diesel.&lt;br /&gt;- Tá quente, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O caminhoneiro se deixou levar pelo papo furado.&lt;br /&gt;- Pra caralho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito comunicativo, ele. O caroneiro fez esforço:&lt;br /&gt;- Se bobear, chove no fim do dia.&lt;br /&gt;- Se bobear chove. - e coçou a barba.&lt;br /&gt;- Gosta de dirigir com chuva?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não teve resposta.&lt;br /&gt;- Gosta de dirigir com chuva?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais alguns segundos de silêncio, até que o caminhoneiro fez um movimento súbito e abraçou o volante com as mãos grossas. O caroneiro percebeu que não fazia sentido distrair um homem que já caía de sono e ainda dirigia. Tentou respirar um pouco daquela calma que sentiu antes da carona e ficou observando a estrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se tocou que o que fazia sentido ali era a estrada. Não eram as cidades pelas quais passaria, não eram as paisagens que encontraria. Era a BR, era o asfalto e o pó. Era o diesel. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começou sem destino, esperando encontrar um no meio do caminho. Só pra perceber que destino é uma coisa completamente desnecessária. Descia aqui, chacoalhava a mão e subia em outro carro. Em outro caminhão. Em outra vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem ia de carro, sozinho, dava carona com um medo só superado pela solidão extrema que justificava parar e acolher um completo desconhecido. Algumas dessas pessoas até que queria que o desconhecido fosse malvado, queria sofrer uma malvadeza, só pra não precisar continuar enfrentando a estrada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a cada carona ele explicava, sem precisar de mais do que olhar pra frente, que a estrada era cheia de ensinamentos. Não uma professora, professoras mastigam demais. A estrada era um livro. E ele era um autodidata da estrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi vivendo desse jeito: sem parar em lugar nenhum, só em movimento. Faixas brancas e amarelas que se sucediam sem fim. A cada dia percebendo como foi ingênuo no dia anterior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A insensatez que deu início à viagem fez sentido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morreu um tempo depois, num acidente. Rosto e asfalto próximos e espalhados, como se fossem uma coisa só. Como um amante que morre num momento de clímax. Não chegou a experimentar a velhice, e nunca mais se sentiu velho, a estrada não envelhece. No fundo da boca esmagada, um gostinho de ridículo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estrada sentiu saudades, mas seguiu em frente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-579082868019638486?l=comentariosabertos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/579082868019638486/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=579082868019638486&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/579082868019638486'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/579082868019638486'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/09/diesel.html' title='Diesel'/><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='05712358080031572323'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-3371079551041113006</id><published>2009-08-11T16:51:00.000-03:00</published><updated>2009-08-11T16:52:16.555-03:00</updated><title type='text'>Farinha</title><content type='html'>Estou sendo perseguido. Eu vejo minha sombra e eu vejo minha imagem espelhada nos vidros, e eu sei que isso me persegue. Eu lembro da minha família, ela também me persegue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu futuro me persegue muito. Ele me caça, ele quer me ver morto. Ele quer repetir a história desgraçada de tanta gente que veio antes. Gente que fez rimas bonitas e que trabalhou das oito às seis, e que recebia salário e que se preocupava com o que os outros pensavam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viraram todos farinha. A farinha me persegue. A farinha quer me alimentar, quer que eu vire tão pó quanto eles. Não existe forma de fugir do pó, mas dos pós que eu possa ser, que não me torne farinha. Que seja cocaína, que seja glitter. Que seja proibido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A atmosfera é azul e etérea, nublada com suspeita e ingenuidade. Eu estou escondido em uma casa abandonada, porque estou sendo perseguido. Aqui, debaixo dessa mesa, estou seguro. (Não seguro do que me persegue, mas seguro do que eu penso. É como dormir assustado com um ladrão querendo pular a janela, eu puxo o cobertor o mais alto possível e escondo o rosto. Eu me rendo, eu combino com o ladrão "Venha aqui, roube o que quiser, eu finjo que estou dormindo e você não me mata, e finge que acredita no meu sono e finge que não ouve os meus soluços",) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me obrigo a ficar coberto, eu não posso ser visto. Eu estou sendo perseguido, bolas. O céu está lá fora, e está doido pra me atacar. Ele quer me arrancar pedaços, ele quer que eu ache as estrelas bonitas como todos os mortais acham. Não vou achar, As estrelas são feias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As estrelas são poucas, elas não são suficientes, elas não me impressionam. Elas mal brilham. Elas não me impressionam. Eu não sou mortal, eu não me impressiono com as estrelas. As estrelas são repetitivas, elas não podem me hipnotizar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por não ser mortal me escondo, por não ser mortal me protejo. Estão me perseguindo e querem me matar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-3371079551041113006?l=comentariosabertos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/3371079551041113006/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=3371079551041113006&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/3371079551041113006'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/3371079551041113006'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/08/farinha.html' title='Farinha'/><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='05712358080031572323'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-1547597046797355939</id><published>2009-07-28T03:31:00.002-03:00</published><updated>2009-07-28T03:34:07.751-03:00</updated><title type='text'>Hortelã para Cristo</title><content type='html'>E fui tentando fazer as coisas de sempre de um modo diferente. De algum modo inspirado na minha superstição de coisas pequenas - grudar chiclete na cruz é comigo mesmo, mas e se ontem eu grudei um chiclete vermelho nela e fui assaltado? Hoje, só pra garantir, vou grudar um verde. Hortelã para Cristo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É como começar um texto pelo título: os títulos são rígidos, os textos são fluidos. Toda a fluidez do texto precisa se ancorar na rigidez do título. Palavras lânguidas, períodos infindáveis, emoções impossíveis de descrever descritas palavra por palavra só por presunção de quem escreve? Prenda-as a um título sórdido e tudo está remediado. Em algum lugar se cria uma ironia que justifica qualquer baboseira dita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deu certo? Repita o chiclete verde na cruz. Deu certo duas vezes, na terceira não? Veja, é preciso saber construir superstições. O que mudou de um dia pro outro que você não achou interferir? Alguma coisa interferiu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fez sexo oral no dia anterior? O chiclete tem o efeito diferente nesse caso. Você grudou o chiclete na cruz de cima para baixo ou de baixo para cima? Importantíssimo. Guarde os detalhes, boas superstições se fazem nos detalhes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tente jogar uma pedra num gato preto na minha frente pra ver se eu não te atiro uma pedra bem maior, na nuca. Superstições não podem envolver animais. Mantenha-se em detalhes que não possuem vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Medo de ser assaltado? Logo antes de passar pelos dois simpáticos meninos maltrapilhos que te esperam com a mão no bolso na esquina, faça quatorze minissinais-da-cruz com o indicador da mão direita em uma pequena superfície do seu corpo. Mantenha a discrição. Cuidado, fazer quatorze minissinais com o fura-bolo pode ser fatal. Fazer catorze minissinais, o apocalipse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Não precisa ser cristão para fazer o ritual. Dispa-se dos seus preconceitos religiosos, estamos falando de segurança pública!)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um bom sistema de compensação é muito importante. Quando desequilibrar as suas energias com uma superstição mal executada, seja ligeiro em repará-la com alguma ação semelhante, mas de valor contrário. Explico: Durante um minissinal-da-cruz, você topou com o pé esquerdo no meio fio. O que fazer? Dê um jeito de topar também o pé direito. Da mesma forma, na mesma intensidade. Outro minissinal (agora sim, com o indicador da mão esquerda, pra contrabalançar), e volte ao ritual anterior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acumulo milhões dessas superstições pequenininhas. Já me disseram que eu tenho TOC. Eu respondi '-TOC, quem é?'. Só pra completar a frase. Pra bom entendedor, meia palavra basta. Para um supersticioso, nada de deixar a frase pela metade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me ocorre também que grudar chicletes na cruz pode ser uma ótima maneira de utilizar chicletes mascados, inúteis para reaproveitamento ou reciclagem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Pequena pausa pra contar de uma vez que fui a um restaurante árabe e fui recomendado pelo dono do estabelecimento a comprar um chiclete sabor pimenta, que segundo ele era uma maravilha. Obedeci e adorei, adoro pimenta. Também segundo o dono, se eu guardasse o chiclete enrolado num papelzinho na geladeira, no dia seguinte o sabor voltaria. Fiz a experiência - o gosto não voltou. Árabe também entra no balaio popular de que judeu é pão-duro? Será melhor corrigir a fala popular e mudar nosso preconceito para 'proveninente do oriente-médio pão-duro'? É importante no Brasil de hoje termos preconceitos que não sejam limitados por fronteiras.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Retomando minha teoria: grudando todos os nossos chicletes mastigados em cruzes, formaríamos gigantescas cruzes. Um símbolo da nova cultura brasileira. A fé, a fé de Aleijadinho, a fé dos nossos artistas interioranos desconhecidos, a fé nas megacruzes de chiclete. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Servem de ponto turístico e pra contrabalançar os minissinais-da-cruz que eu faço cada vez mais, com medo de ser assaltado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-1547597046797355939?l=comentariosabertos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/1547597046797355939/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=1547597046797355939&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/1547597046797355939'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/1547597046797355939'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/07/e-fui-tentando-fazer-as-coisas-de.html' title='Hortelã para Cristo'/><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='05712358080031572323'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-2360436665724225323</id><published>2009-07-15T11:11:00.001-03:00</published><updated>2009-07-15T11:11:41.033-03:00</updated><title type='text'>A Gorda</title><content type='html'>Como quem descascava uma mexerica, a gorda procurava amor. Pedacinho por pedacinho da casca rasgada e arrancada, a acidez sentida por debaixo das unhas, a avidez de engolir os gomos. A gorda era gorda de tanto amor que tinha para dar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se apaixonava, vez em quando. Por alguém acessível, ninguém que fosse fora de seu alcance (não há limites pra sonhar? experimente ser gorda e sonhar com um namorado lindo como o da sua amiga magra). É como se as pessoas se separassem em camadas de beleza, tolerando pessoas de nível semelhante, ignorando os intocáveis feios e fingindo não sonhar possuir alguém superior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem hipocrisia, sem essa de todos somos iguais. Alguém mais feio que você tem chance contigo? Honestamente? Sem ter muitos dígitos na conta bancária? E esse era o problema da gorda, ela não sabia fingir. Não sabia fingir que não queria aquelas pessoas tão inalcançáveis, as bonitas. Não ousava quebrar as regras, ela não interagia com os mais bonitos - eles a excluiriam. Até as amigas, as amigas eram todas tão feias quanto. A diferença da gorda para com as amigas - algumas também gordas - era que ela não aceitava a própria camada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os bonitos são os magros, não são? Ela não era magra. Os bonitos são os magros, não são? As amigas tinham namorados feios. A gorda não queria um namorado feio. Qual o sentido de namorar se não o de contemplar uma beleza, mesmo que só você a veja, na outra pessoa? E a gorda, azarada. só via a beleza no que todos concordavam ser belo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na casa da gorda, dois cachorros. Um era de raça, um amor. Brincava, corria, uma simpatia, não havia quem não gostasse. O outro, vira-lata, fora socorrido pela família depois de ser atropelado e que, por esquecimento, acabou ficando ali mesmo. Um poço de carência, o vira-lata. Chorava alto, pulava em qualquer um que chegasse perto, implorava atenção. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A gorda amava o de raça sinceramente, porque este se fizera amar. O vira-lata era desprezado pela família inteira, mas a gorda também o amava. Por obrigação. Os olhos pedintes do vira-lata refletiam o olhar desesperado por amor da gorda. Era uma corda-bamba, porque se identificar com um vira-lata carente não é tão gostoso assim: ela odiava o vira-lata, quando esquecia que devia amá-lo. Cachorro mais insolente, chato, pidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha um amor que amava há algum tempo, porque de vez em quando a gorda via beleza em alguém do seu mesmo nível, sem perceber que caía na armadilha em que suas amigas já haviam caído. Só um. Ele era magro, e ela amava isso a respeito dele. Tinha um corpo quase bonito, uma postura quase elegante. O rosto era um desastre, mas até que os dentões tinham seu charme. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conheceram-se num ônibus, que ela pegou pra ver uma tia no interior. Os dois sentaram lado a lado e ele ousou puxar papo. Pouco depois, consumida por desejo e vontade de transigir, ela se entregou pela primeira vez ali mesmo, o banco de ônibus testemunha de umas poucas gotas de sangue e alguns gemidos abafados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trocaram telefones, mas nunca voltaram a se encontrar. Conversavam longamente ao telefone, fantasiando um reencontro. Combinaram casar. Combinaram que começariam uma vida juntos, e ela levaria o vira-lata (até os vira-latas merecem um dia de protagonista). Com o tempo as ligações foram ficando esparsas, e eles se perderam numa curva que a vida deu. Coincidências não resistem ao destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo muito depois, ela se lembrava. Ela não foi ignorada. Ela não foi sempre só a gorda. Ela foi amada. (Se ele realmente a amou, não importa. Talvez tenha amado. De qualquer forma, a gorda acreditava sinceramente nas memórias).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando, depois disso, recebia uma proposta amorosa de alguém, a resposta padrão era não. O amor - que ela já tinha experenciado, pensava - aparece, ele não precisa de propostas. Ah, e quando ele aparece são horas no telefone contando todos os defeitos que tem, pra que o outro diga "Você não é assim" e você sobe às nuvens, estufado pelas ilusões macias que ouviu. O outro, coitado, pensa que você é perfeito. Você, esperto, sabe que o outro é perfeito, e de todas as formas tenta evitar que ele descubra suas verdadeiras imperfeições.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi visitar a tia novamente, muitos anos depois. A tia não tinha importância na sua vida, era só uma tia, e a gorda não se importaria se ela fosse só mais uma tia no porta-retratos da estante. Era a viagem que tinha valor, as horas no ônibus lembrando da sensação de roçar silenciosamente no banco suado, a vez que fora amada. A única vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na casa da tia, abriu um jornal esperando que o dia passasse rápido, para entrar no ônibus novamente. Na coluna social, o garoto do ônibus casando com uma outra mulher. Ainda mais gorda. A gorda se sentiu traída. "Tudo bem que eu não sou tudo isso, mas me trocar pela ainda mais gorda?". Era pior que traição, era trair e humilhar. Chorou no banheiro, enquanto passava grossas camadas de batom nos lábios gordos, tentando parecer revigorada. Ficou parecendo uma palhaça, os olhos vermelhos combinando com a boca. A palhaça mais triste que já fora vista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltou para casa, com nojo do ônibus, um enjôo horrível que insistia em fazê-la suar no banco, lembrando-a mais ainda do dia em que fora usada (não, não fora amada, pensava ela, fora usava, roubada, profanada); Chegando, foi cumprimentada alegremente pelo cachorro de raça. A gorda se ajoelhou, olhou para os seus olhos orgulhosos de cão comprado, encheu-se de raiva e atacou o cachorro com um soco. Soco mesmo, desses dados em cara de gente. Com força, bem no focinho idiota do cachorro. Como era arrogante! Pois era só um cachorro, não devia ser arrogante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto olhava o cachorro de raça tentar, perplexo, se reerguer, sentiu uma forte dor no braço. Era o vira-lata, com olhos de fúria que ela nunca tinha visto antes, defendendo o amigo. Puxou o braço, e o vira-lata parecia ter voltado ao normal, pidão e carente, como se nada tivesse acontecido. Abanava o rabo e chorava, o pênis exposto pelo cio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A gorda cobre o braço como pode, algum sangue escorre. A mordida não fora tão profunda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Puxou o vira-lata direto pelo pescoço, sem o levantar do chão, e o trouxe para dentro da casa. Era a primeira vez que entrava na casa, lugar antes reservado para as pessoas e cachorros de raça.  Foram para o quarto. O cachorro assustado, tentava acompanhar a velocidade da dona, mas as patas não conseguiam direito e ele era arrastado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela chorava. As lágrimas escorriam pelo canto dos olhos vermelhos inchados, lambiam suas bochechas vermelhas e gordas e morriam nos lábios, borrando o batom em sua boca vermelha e pintando de vermelho também seu queixo (o primeiro de seus vários queixos de gorda).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrou dos doze anos de idade. Na escola, escutou sem querer um professor dizendo "Coitada dela, ela tem um rosto tão bonito, pena que é gorda". Nunca ouviu alguém falar "Coitada de fulana, tem um rosto tão bonito, pena que ela é magra demais". Gordas sempre tem o rosto bonito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arrancou as roupas do corpo e puxou o vira-lata para cima de si. O cachorro, instintivo, penetrou-a com força. Ela gritou de dor. Ela também não entendia. O cachorro assustado com a atenção inesperada e com o grito da dona, chorava. A gorda, sem condições de pensar, gemia. Sentia nas canelas gordas que quase não existiam (pareciam uma extensão das coxas, que só terminavam em pés enormes e roliços que lembravam patas de elefante) o peso das patas do cachorro, o pêlo sarnento dele se misturando com a pele dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cachorro é o melhor amigo do homem, e ela estava confusa por misturar amor e amizade. Ele, chorão e carente. Ela, chorona e carente. Almas gêmeas. Pela segunda vez, a gorda foi amada. O amor de um cão é sempre fiel.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-2360436665724225323?l=comentariosabertos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/2360436665724225323/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=2360436665724225323&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/2360436665724225323'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/2360436665724225323'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/07/gorda.html' title='A Gorda'/><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='05712358080031572323'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-4247282363045098622</id><published>2009-07-09T23:43:00.001-03:00</published><updated>2009-07-09T23:43:33.987-03:00</updated><title type='text'>O inferno</title><content type='html'>Eram duas mil pessoas dentro de um ônibus (pelo menos era apertado como se fossem. Se alguém soltasse um pum ali, ele voltaria cu adentro procurando um lugar mais agradável pra poder respirar). Se a voz do povo é a voz de Deus, naquele momento Deus resmungava: &lt;br /&gt;- Puta que pariu! Deus me livre do valor dessa passagem, alguém aí começa a andar! tem gente passando mal por aqui, faz favor! O preço da passagem tão alto e a gente se espremendo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem mal conseguia puxar o ar. Sorte ter o pescoço comprido e estar num patamar superior ao resto das pessoas. Era como se conseguisse enxergar o ar ficando turvo de tanta gente querendo respirá-lo. Ironicamente, as janelas estavam todas fechadas, vedando a possibilidade de um ventinho resgatador chegar para debochar do aperto daquela gente. Era tanta gente num lugar só, que se ele desse um pulinho, não voltaria a tocar os pés no chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Criança chorando. (Devia ser uma criança invisível, o choro era abafado e ela não parecia estar em lugar nenhum. Quem sabe seguiu o exemplo do pum e engatinhou vagina adentro na mãe, lutando por um lugar mais confortável; como se ouvia o choro não sei, quem sabe era uma vagina de boa acústica.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chuva do lado de fora. A mesma chuva que o fez pegar o ônibus naquele dia, pra não se molhar. A fila pra entrar no ônibus era enorme, e ele se molhou mesmo assim. Pelo menos chegaria mais cedo em casa. Mão no bolso de trás, pra segurar a carteira. Não dá pra dar bobeira nos dias de hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parecia um auto-pervertido, um masturbador da mão na bunda. Enquanto o companheiro do lado aproveitava do pouco espaço pra se esfregar na bunda senhoril que o sucedia (sem perceber que um outro companheiro atrás se esfregava na sua), ele apertava forte a mão na bunda. Quase dez reais e um xerox autenticado da carteira de identidade na carteira, ele não podia se dar ao luxo de ser roubado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bom da superlotação de um ônibus é que se quebra um pouco do gelo que os ônibus geralmente têm. Ônibus pode ser mais frio do que um elevador, porque elevadores não envolvem competição. Ônibus são as olimpíadas da frieza. Ninguém olha no olho de ninguém - maldito aquele que inventou as cadeiras de frente uma para a outra, forçando que o passageiro fique olhando para o lado pra não precisar fingir um meio-sorriso quando os olhos por acaso encontrarem o do passageiro que senta à sua frente. Ônibus apertado é a iluminação espiritual, uma aglomeração de almas capaz de superar qualquer procissão. E todo mundo pede pelo amor de deus por um espacinho a mais. É a definição mais perfeita de fé. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Por exemplo, a fé de se conseguir espremer até a porta quando se chega no ponto de descida. Comece três quilômetros antes, puxe a cordinha assim que o ônibus passar do ponto anterior e torça, reze, dê a luz ao seu próprio menino Jesus, e ainda assim corra o risco de não conseguir descer no seu ponto.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele sorriu. Ele não ligou pra mão que lhe beliscava o rim (ou era a costela de outra pessoa, mas que cutucava, cutucava). Ele não ligou pro congestionamento que o fez demorar mais para chegar em casa do que se tivesse ido à pé. Ele não ligou pela loucura financeira que cometia pagando o passe do ônibus quando poderia muito bem ter caminhado aquelas setenta e cinco quadras e ainda queimado umas calorias. Ele não ligou pra nada. Só segurou bem a mão na própria bunda, e enfrentou o ônibus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando desceu, sentiu a própria calça cair. &lt;br /&gt;- Puta que pariu, alguém arrancou meu botão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ônibus são o inferno.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-4247282363045098622?l=comentariosabertos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/4247282363045098622/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=4247282363045098622&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/4247282363045098622'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/4247282363045098622'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/07/o-inferno.html' title='O inferno'/><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='05712358080031572323'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-3494350312582463890</id><published>2009-06-14T00:55:00.001-03:00</published><updated>2009-06-14T00:59:24.226-03:00</updated><title type='text'>O Fruto</title><content type='html'>Primeiro eu falava mais do que devia, pois era exatamente isso que eu devia fazer. Me conduzi a um estado de ignorância fingida que de tão bem fingida passou a ser ignorância verdadeira. A ignorância sempre é verdadeira, a ignorância contém a verdade e só conhece a verdade quem é ignorante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De tão bem fingido, ignorei a minha ignorância, incapaz de saber que tudo em mim já era perfeito como podem ser perfeitas as coisas feitas de barro e sopro divino que andam distraídas pelo planeta. E me acreditei errado. Pela palavra, tornei-me imperfeito - comi o fruto da palavra, que me deu a capacidade de enxergar o bem e o mal - Bem e Mal não existem, esse é o grande pecado, a alucinação original de que algo pode existir e ser errado ao mesmo tempo. Não existe errado na existência, errado é não existir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entorpecido pelo fruto, tentei corrigir meus pretensos erros calando a minha boca, tão acostumada a falar demais. O problema de acreditar em erro é que também se começa a acreditar em correção, e é impossível corrigir o que nunca foi errado. Fingi ser o que não era (pois o que eu era não podia ser divino, era falho e fraco e humano), e de tão bem fingido, calei mais que a minha boca: calei minha capacidade de falar e me retornar, cego, à ignorância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como numa máquina de escrever, bati na mesma tecla mil vezes. O erro já estava lá, pintado na folha, mas eu insisti em bater em outra tecla, repetidamente, com a força que angústia dá, borrando outra letra no lugar da original errada. Por mais errada que fosse a folha original, era imaculada, e a correção só lhe manchou e enfeou. Fiquei manchado e enfeado eu mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A alucinação do fruto é persistente e contínua, e continuei a ver o erro em mim como algo a ser extirpado, arrancado como uma vesícula cheia de pedras. Agora, meu silêncio era o defeito. Me fingi espontâneo e cheio de coisas a dizer, mas não consegui fingir bem o suficiente. Abrindo a boca, escapava de mim o hálito podre do fruto da Árvore do Conhecimento. Em silêncio, era isolado do mundo. Falando, o mundo preferia isolar-se de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A árvore que era do Conhecimento, não o fruto. Antes do fruto, nada era certo ou errado, tudo simplesmente era. Também não havia nada de errado no fruto em si, mas fomos incapazes de engolir o fruto por inteiro. Tudo era inteiro, antes da primeira mordida. Tudo era completo na sua objetividade. Mas não pudemos engolir o fruto por inteiro. Tivemos que rasgá-lo em pedaços, quebrar com os dentes a sua integridade, digerir nojentamente o que lhe compunha. Daí a ilusão. Do Conhecimento que originou o fruto, criou-se a ilusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como fomos longe! O fruto proibido nos embriagou tanto que nos juntamos para corrigir os pretensos defeitos do mundo juntos, e passamos a dar sentido ao sentido dos outros - com a repreensão de quem não é capaz de olhar para si mesmo de tão embriagado - e nos enganamos de sentido, e fomos no sentido errado, e em vez de matar a ilusão, matávamo-nos uns aos outros. Queimávamos uns aos outros desejando queimar com eles o que estava queimando em nós, nos poucos momentos em que a realidade inicial, o Conhecimento, tentava brotar e dizer que tudo era ilusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegamos ao ponto de não saber viver sem o pecado. A alucinação foi tão longe que nos perverteu inteiros, e se não há religião, há o corpo que tenta se dizer imperfeito, e iludidos, tentamos curá-lo. Não há cura para o corpo. Não há correção. Não há melhora, porque não existe pecado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fruto se revira no meu estômago e tenta sair, tudo o que entra tenta sair - nem sempre consegue, somos todos prisões - e o vomito. Perdem-se os adjetivos, perdem-se os erros, perdem-se os nomes. Ganha-se um pouco de lucidez (o fruto já foi digerido em parte, já corre no meu sangue a maldição de querer nomear tudo como certo e errado, permitido ou não permitido). Minha consciência fica vaga e lenta, e estou absorvido em observar sem nomear o que vejo. O que vejo, aliás, agora faz parte de mim. Regrido a quando era perfeito (por desconhecer a alucinação do imperfeito), e tudo é uma coisa só. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas sou homem, e sou fraco, e estou sem alimento. Não conheço nada além do fruto. Me entrego a ilusão, viciado que sou. A fome me faz animal, desesperado por alimento a ponto de pular na jugular de qualquer coisa que passe a minha frente. Vou até a Árvore, tomo do fruto e dou mais uma mordida. Volto a falar mais do que devia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À espreita, uma serpente me sorri.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-3494350312582463890?l=comentariosabertos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/3494350312582463890/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=3494350312582463890&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/3494350312582463890'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/3494350312582463890'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/06/o-fruto.html' title='O Fruto'/><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='05712358080031572323'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-2878132039145967636</id><published>2009-06-05T02:17:00.000-03:00</published><updated>2009-06-05T02:18:08.470-03:00</updated><title type='text'>O velho Paço</title><content type='html'>Ficava numa praça perdida entre outras tantas praças da grande cidade. Estava lá desde 1800 e qualquer coisa. O Paço era só mais uma construção antiga entre todas as outras que sobreviveram lá e cá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viu gerações nascerem e morrerem. Recebeu tanta gente, no seu tempo áureo - disputadíssimo, local em que pessoas medíocres recebiam honras mais ou menos. Pessoas não tão importantes assim, que adoravam o sentimento de importância que vinha de estar nos seus salões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdeu a glória aos poucos. A sua imponência parecia zombar da sua inutilidade. A cidade se acostumou com o trambolho de concreto na praça. Construiu trambolhos maiores, que roubaram a importância do velho paço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recebia apenas a visita do vento frio que entrava por suas vidraças quebradas, que passava assobiando canções de abandono. Volta e meia abrigava um mendigo que conseguia dormir mesmo com o barulho e frio trazidos pelo vento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suas gigantescas paredes externas passaram a escorar prostitutas cansadas de se apoiar nos estreitos saltos durante a noite. Às vezes, recebiam a honra de um bêbado mijando. Ratos passavam por lá e cá, freqüentadores assíduos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Paço assistia. Viu pessoas brigando por coisas que também viu serem esquecidas. Viu, enojado, a pequena praça que lhe fazia companhia ganhar um calçamento feio de petit-pavet.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viu as casas que lhe cercavam darem lugar a edifícios. Viu o tempo fazer seus remendos e estragos em tudo o que lhe rodeava - e em si mesmo. A paisagem mudou, mas permanecia o Paço, como um velho que não consegue morrer mesmo se sentindo um estorvo para os que ficaram. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que um dia um pequeno visionário qualquer se compadeceu do Paço. Convenceu um, convenceu outro, e começou a restauração. As paredes de madeira podre, do lado de dentro, foram todas quebradas e reconstruídas com um tijolo fajuto, que daria um ar mais histórico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Paço foi percebendo que era velho, não histórico. Pra ser histórico, precisava mudar. Viu suas lajes estupradas por encanamento e fiação elétrica. Viu as vidraças quebradas serem trocadas por outras de acrílico, semelhantes às antigas mas mais baratas. Recebeu pintura nova. Quadros valiosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi reinaugurado com pompa. A iluminação nova foi caríssima, e o Paço nunca pareceu tão imponente - nem nos tempos em que era novidade. As pessoas que passavam por ali sem notar o velho, notaram o histórico. Abismadas. Tiravam fotos, achavam lindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltou a glória. Mas, embalsamado vivo, o Paço não achou mais nada. Ganhou a eternidade, pelo menos por algum tempo. Mas perdeu a alma.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-2878132039145967636?l=comentariosabertos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/2878132039145967636/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=2878132039145967636&amp;isPopup=true' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/2878132039145967636'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/2878132039145967636'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/06/o-velho-paco.html' title='O velho Paço'/><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='05712358080031572323'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-5706678855936082774</id><published>2009-06-01T17:14:00.000-03:00</published><updated>2009-06-01T17:15:35.653-03:00</updated><title type='text'>Alerta Vermelho</title><content type='html'>Alerta vermelho: comecei a pensar. Foi difícil tirar a nuvem que embaçava minha visão do que eu realmente pensava - desliguei-a lentamente. Preocupação, mandei embora. Meus pais, mandei embora. Senso comum, mandei embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E estava limpo. Tirei tudo o que não era exatamente o que eu pensava. Arranquei o que me ensinaram a pensar. Cheguei aonde? No vácuo. Pôxa vida, eu não pensava nada por mim mesmo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tá certo, vou começar do zero. Olhar pra qualquer coisa e pensar sobre ela. Pensar de verdade, pensar por mim mesmo. Pensar. Olhei pra uma cadeira. Porra, por que é que sempre que eu olho pra alguma coisa aleatória procurando inspiração me aparece justo uma cadeira na frente?&lt;br /&gt;Mas tudo bem. Vou tirar meus preconceitos da cadeira. Às vezes ela tem uma tonelada de possibilidades de pensamento sentada nela e eu nem percebo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se tiver uma tonelada de possibilidades na cadeira, ela não ia se espatifar? Não, não. Não tem possibilidade na cadeira. Quem sabe me sentando nela... Não, as possibilidades iam parar todas na minha bunda - e minha bunda não é tão fã de possibilidades.&lt;br /&gt;Melhor desistir da cadeira. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um cachorro late, lá fora. Boa idéia, vou pensar sobre o cachorro. Cachorro. Quatro patas. Mamífero. Não, isso não é pensar, isso é acumular informações. Vamos lá, pensar. Pensando. Cachorro. Porra, maldito cachorro que não pára de latir. Não consigo pensar com esse barulho todo. A natureza foi planejada pra me impedir de pensar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será que existe deus? Se existe, garanto que ele não quer que eu pense. Nem vou entrar nos méritos de religião (se bem que, tem lugar melhor pra pensar do que na igreja? Não em coisas filosóficas, mas eu tenho uma teoria que diz que as igrejas são o melhor lugar possível pra se fazer uma lista de supermercado). Então, se existe deus, por que ele fez um cachorro que late tanto? Por que ele fez o Faustão, aliás?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espera aí, se o Faustão apareceu na minha cabeça, é porque eu não estou pensando direito. Vou esquecer o Faustão. Sai, Faustão, sai. Quem sabe se esse maldito cachorro parasse de latir, eu conseguiria esquecer o Faustão.&lt;br /&gt;Se o Faustão sentasse nessa cadeira, certeza que ela espatifaria. Certeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que eu tô imaginando o Faustão latindo na minha cadeira? Não é uma imagem bonita. Daqui a pouco aparece a Leonor Corrêa e eles começam a uivar, aposto. Por onde anda a Leonor Corrêa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chega. Chama a nuvem de novo. Alerta vermelho: desisti de pensar. Onde eu posso comprar uma Veja aqui perto?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-5706678855936082774?l=comentariosabertos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/5706678855936082774/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=5706678855936082774&amp;isPopup=true' title='19 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/5706678855936082774'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/5706678855936082774'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/06/alerta-vermelho.html' title='Alerta Vermelho'/><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='05712358080031572323'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>19</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-7671083256483784084</id><published>2009-04-27T00:32:00.001-03:00</published><updated>2009-04-27T00:32:42.639-03:00</updated><title type='text'>Fagocitose</title><content type='html'>Arre, estou farto de gente normal. Também não quero semideuses. Quero demônios por inteiro, pessoas sem medo da própria humanidade. Quero a minha porcentagem de toda a matéria negra que é maioria no universo. Quero poder vampirizar os meus demônios, sugar sua vulgaridade doce, a doçura que aprendemos a banir de nós mesmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mundo não é cão-come-cão. Acredito que os cães tenham mais dignidade. Somos primitivos demais para caçar em matilha, acabamos concorrendo e perdendo a caça. Não somos muito mais inteligentes do que um anticorpo que ataca o próprio corpo pensando estar fazendo o bem. Nos fazemos mal, e adoramos. Amar é devorar o próximo pelo prazer da indigestão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou como o vinho: azedo com o tempo. Torno-me intragável, mais e mais a cada dia. Meu bouquet não encontrou lábio que o merecesse no tempo de sua doçura. Agora deleito-me da distância, dos calos deixados por pequenos machucados que receberam importância demais e que permeti que doessem uma dor desnecessária. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brincar de esfinge é deliciosamente idiota e humano. Decifra-me ou o quê? Decifro-te antes, com garfo e faca na mão. Depois você me devora de volta e ficamos todos em fagocitose. Como é prazerosa a indigestão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pura imagem! O que me falta falar? "Oh, sou amargo e acho bonitinho?". Só me falta gesticular com um cigarro aceso. Talvez acarinhar um gato enquanto faço a minha mais ensaiada cara de cu. Milhões de anos de evolução, dezenas de músculos no rosto, tantas expressões possíveis e eu decido usar nenhuma. Aquela mesma cara que tinha minha ancestral ameba. Medo do ridículo? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RI-DÍ-CU-LO. Demônios por inteiro, agora fico de demoniozinho de mim mesmo. Vou amar o ridículo. "Amar é o ridículo da vida", foi Fernando Pessoa? Ridículo é amar a vida. Ridícula é a vida de quem ama. Ridículo é tudo, e eu amo o que me faz rizível. Perdi a vontade de ter graça. Que a graça venha involuntariamente, que surja a graça da minha desgraça. Demorei demais para acolher o meu ridículo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ser gente enjôa, tentar ser semi-deus é querer virar uma estátua de mármore e quebrar na primeira vez em que algo atinge mais o "semi" do que o "deus". Não quero ser semi-nada. Já me basta ser semi-novo e não poder me trocar por outro modelo mais recente. Demônio, sim, demônio como fui proibido de ser.  Divirto-me mais. Quero amores mais doídos, mais reais, menos bonitinhos. Dores de verdade, não de fachada. Experimentar a vida toda, não só as partes bonitas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tente mais me decifrar. Fagocita-me, tô pedindo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-7671083256483784084?l=comentariosabertos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/7671083256483784084/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=7671083256483784084&amp;isPopup=true' title='15 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/7671083256483784084'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/7671083256483784084'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/04/fagocitose.html' title='Fagocitose'/><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='05712358080031572323'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>15</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-6898681985366146470</id><published>2009-04-25T00:45:00.000-03:00</published><updated>2009-04-25T00:47:04.759-03:00</updated><title type='text'>Lábios Ateus</title><content type='html'>Lábios lambidos&lt;br /&gt;Saliva espalhada por tudo&lt;br /&gt;O amor, definitivamente, não sabe ser higiênico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Devolva-me:&lt;br /&gt;- o tempo perdido&lt;br /&gt;- as noites sem sono&lt;br /&gt;- o Neruda que você me fez ficar sem ler, porque quis ir ao cinema &lt;br /&gt;- a capacidade de sentir o aroma de perfume barato e não lembrar do seu cheiro&lt;br /&gt;- o dinheiro que eu gastei em telefone&lt;br /&gt;- o retrato que você roubou da minha carteira (se ainda tens, não sei, mas se tiver...)&lt;br /&gt;- o tempo que eu gastei tentando entender seu gosto musical ruim&lt;br /&gt;- a minha ingenuidade (que você quebrou)&lt;br /&gt;- a minha ingenuidade (tinha sobrado um restinho, você fez questão)&lt;br /&gt;- a minha ingenuidade (ok, eu sou patético)&lt;br /&gt;- as horas gastas na frente do espelho pra me sentir bom o suficiente pra você&lt;br /&gt;- o esforço que eu fiz pra que fôssemos compatíveis e tivéssemos assunto&lt;br /&gt;- o meu ridículo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode ficar pra você:&lt;br /&gt;- a minha idiotice (por ter sido tão ingênuo)&lt;br /&gt;- algumas das memórias boas&lt;br /&gt;- aquele boné nojento que você não tirava por nada nesse mundo&lt;br /&gt;- minha dúvida sobre você ser careca e tentar esconder&lt;br /&gt;- tudo o que eu te escrevi&lt;br /&gt;- as cicatrizes da minha paixãozinha barata e seus reflexos metidinhos a artísticos&lt;br /&gt;- (te interessa um pouco da ingenuidade que ainda ficou comigo?)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lambi seus lábios&lt;br /&gt;Lambeste os meus&lt;br /&gt;Só me restaram&lt;br /&gt;lábios ateus&lt;br /&gt;No fim das contas&lt;br /&gt;de que vale um lábio?&lt;br /&gt;Lábios: os pára-choques da alma.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-6898681985366146470?l=comentariosabertos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/6898681985366146470/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=6898681985366146470&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/6898681985366146470'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/6898681985366146470'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/04/labios-ateus.html' title='Lábios Ateus'/><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='05712358080031572323'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-8447153679912042494</id><published>2009-04-21T19:08:00.000-03:00</published><updated>2009-04-21T19:15:18.020-03:00</updated><title type='text'>Passou</title><content type='html'>Passou batom. Passou rímel. Passou blush. &lt;br /&gt;Passou fome uma semana inteirinha esperando o dia do encontro.&lt;br /&gt;Passou o vestido à ferro ela mesma, com medo que a empregada queimasse.&lt;br /&gt;Passou um café bem forte, sem açúcar, pra agüentar ficar em pé durante o dia.&lt;br /&gt;Passou pela farmácia e comprou camisinha, só pra garantir.&lt;br /&gt;Passou raiva quando o flanelinha na frente da farmácia a chamou de tia.&lt;br /&gt;Passou o tempo tentando assar uma torta (que ela só ia olhar, nada de comer). Passou do ponto - de tão distraída, esqueceu do forno.&lt;br /&gt;Passou as obrigações do dia seguinte para uma colega (aquelas colegas que sempre entendem).&lt;br /&gt;Passou a noite inteira sentada, esperando.&lt;br /&gt;A noite passou.&lt;br /&gt;No dia seguinte, passou com o carro por cima do infeliz.&lt;br /&gt;Passou o resto da vida com um sorriso bobo - na cadeia não se passa fome.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-8447153679912042494?l=comentariosabertos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/8447153679912042494/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=8447153679912042494&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/8447153679912042494'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/8447153679912042494'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/04/passou.html' title='Passou'/><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='05712358080031572323'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-917312592824051769</id><published>2009-04-17T23:33:00.002-03:00</published><updated>2009-04-17T23:38:40.381-03:00</updated><title type='text'>Bibliotecas</title><content type='html'>O mundo mudou, e hoje somos completamente dependentes da grande biblioteca virtual - como diria uma reportagem de televisão sobre a internet, ignorando que ninguém pega vírus numa biblioteca normal (a não ser transando no banheiro da biblioteca, e sem camisinha). O problema mesmo foi quando a internet resolveu meter a mão nas bibliotecas de verdade, aquela metida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É prático poder renovar o livro só entrando no site da biblioteca e botando o código de barras da sua carteirinha? Prático, é. Só que livro de biblioteca não tem a mesma graça se você não lembrar no fim da tarde que hoje é o último dia para a devolução e tiver que sair correndo pra não pagar a - caríssima - multa de um real por dia de atraso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E outra, não é mais carteirinha, é cartão. Ficou tudo magnético demais, nem carimbo o cartão leva! Lembram dos carimbos de biblioteca? De morrer de orgulho porque teve de trocar quatro vezes de carteirinha no ano letivo, porque não sobrava mais espaço pra carimbar os livros?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem contar na delícia de olhar o cartão pendurado na parte de trás do livro, com as datas de devolução de quem pegou o livro antes de você. Ótimo pra ficar indignado: "Como assim, ninguém empresta Na Sala com Danuza desde 1997?", e depois comentar com todo mundo que as pessoas não lêem mais nada que preste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os códigos? Agora toda biblioteca tem vários computadores pra você procurar o livro pelo título, e é só dar Enter para saber em qual estante o livro está. Antes não, era preciso procurar a seção de Literatura, depois de Literatura Brasileira, depois de Clássicos, e achar o livro por ordem alfabética - escravidão! Tudo naqueles corredores frios, e aquela vontade de soltar pum que só um corredor de biblioteca consegue dar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me surpreende mesmo é que as bibliotecárias - essas sortudas - tenham se adaptado às mudanças. Se fosse eu no lugar delas, iam me encontrar abraçado nas fotos 3x4 e na cola de bastão, me recusando a largar as carteirinhas de papel. E os carimbos, meu deus? Largava o emprego, mas não os carimbos. Ia pra casa, carimbar todos os meus livros, todas as vezes que eu lesse. "Como assim, eu não leio Tereza Batista Cansada de Guerra desde 2006?". E dá-lhe carimbo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-917312592824051769?l=comentariosabertos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/917312592824051769/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=917312592824051769&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/917312592824051769'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/917312592824051769'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/04/o-mundo-mudou-e-hoje-somos.html' title='Bibliotecas'/><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='05712358080031572323'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-2897822094721820805</id><published>2009-03-19T01:52:00.000-03:00</published><updated>2009-03-19T01:53:38.906-03:00</updated><title type='text'>Coração de Manteiga</title><content type='html'>Estava comendo um cachorro-quente olhando pela janela que dá pra rua, e me surpreendi com o olhar de uma criança, bem nova, que me fitava com inveja enquanto remexia o meu lixo. Todos os meus sentidos cristãos bonzinhos foram afetados, me senti o próprio anticristo. Por pouco não corri até a cozinha e peguei tudo de lá, só pra correr pela rua entregando e gritando "Não sofreis, trouxe víveres!". Enquanto viajava nas possibilidades de ser herói e na tristeza da figura quase bíblica da criancinha pobre, me peguei pensando que todos nós no mundo sofremos, em maior ou menor grau, aliás, que nem existe grau,  já que não existe sofrimentômetro pra medir essas coisas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coisa de gente fútil com a barriga cheia. Aí, pra piorar, me lembrei da minha solidão (tudo ainda nos parâmetros que eu aprendi na escola bíblica, quando criança, aquelas unidades de medida tão brasileiras: "de dar dó", "um milhão de vezes", "me matei fazendo isso por você"), a minha solidão abismal (abismal! meu professor de catecismo morreria de orgulho lendo isso, morreria outra vez, já que ele se matava pelos alunos), e como eu sofro por essa solidão. Toda noite eu choro no travesseiro, vocês têm idéia da dor? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu travesseiro tem. Ele chora toda noite também, quando me vê chegando. "Merda, chegou o babão". Problema do travesseiro, quem mandou cair do ganso. É de pena caída do ganso que eles fazem travesseiros, né? Não pegam o coitado do ganso e passam o Satinelle nele, espero. Problema do ganso, também, quem mandou nascer ganso. Enfim, minha solidão. É tão ruim quanto o sofrimento da criancinha, pôxa. Ela não tem o que comer, eu não tenho quem me coma, o que é pior, hein? Aposto que a criança de rua deve fazer sexo muito mais frequentemente que eu, a sortuda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu tenho bom coração, esses dias o cachorro roeu meu sapato de couro inteiro e nem bati nele tanto assim. Eu tenho coração de manteiga. E ninguém se interessa por mim, pôxa? Sempre cumprimentei pobre, sempre tratei preto como se fosse gente! Nos relacionamentos que eu tive, principalmente, me derreto todo. Levo café na cama, nem ligo de repartir o banheiro, brigo constantemente pra pessoa me dar valor, faço chantagenzinha o tempo todo pra fazer charme. O romance ideal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas fica sempre um vazio, é tão triste. Quem sabe com outro cachorro-quente. Duvido que a criancinha gaste tanto tempo teorizando sobre mim.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-2897822094721820805?l=comentariosabertos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/2897822094721820805/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=2897822094721820805&amp;isPopup=true' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/2897822094721820805'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/2897822094721820805'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/03/coracao-de-manteiga.html' title='Coração de Manteiga'/><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='05712358080031572323'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-688443087866901920</id><published>2009-01-01T14:02:00.001-02:00</published><updated>2009-01-01T14:02:46.798-02:00</updated><title type='text'>A Visão Incômoda</title><content type='html'>Longe, você está longe. Nessas horas fica fácil te odiar, já que a distância me faz enxergar um plano geral e sentir o cheiro dos nós da corda que nos amarra. Impossível desatar os nós entre nós sem desatar-nos. Mais fácil tesourar nossos tesouros atados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na minha cama, mas longe. Quilômetros de distância, um telefonema impossível. As mãos ensaiadas para darem-se nunca mais se deram. Sinto a calma de estar completamente desesperado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É duro estar vulnerável, e eu tenho estado vulnerável há mais tempo do que eu me esforço pra lembrar. A amiga do peito arrancou-se do peito, a amiga das fotos apagou-se das fotos. O moço distante perdeu-se na distância e encontrou-se no âmago da perda. O equilíbrio tropeçou em si mesmo. O longe não se mede: caiu do coração, está longe demais para ser tocado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algum dos meus seiscentos sentidos me permite sentir de longe, mas a emoção é uma lupa que distorce a visão e engrandece o desfoque. O ciúme engole a vontade de conquista, troca a direção e faz o sentido perder o sentido, sentido por não ter sentimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais econômico, e minhas emoções preferem ser econômicas, é evitar o risco. Arrancar o fruto pela raíz, acentuar o que parece errado para que as contas fechem e a dívida fique mais aparente. Preciso distorcer muito, no seu caso específico. Há muito tempo você somente soma. Você me deve débitos, meu caro, para que eu possa descontar minhas falhas das suas e igualar nossas desigualdades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou contente com a distância, entenda isso. É fácil imaginar o mundo daqui de onde estou. Desconfortável de tempos em tempos, nos tempos em que as pálpebras se descolorem do faz-de-conta e abrem-se para a visão. Incômoda visão, lúcida demais pra minha inteligência emocional frágil. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vejo mais amigos na rua, talvez por não prestar atenção suficiente durante minhas caminhadas, talvez por não prestar atenção suficiente aos  meus amigos. Desconheci meus conhecidos, impus minha distância. Por pura economia. Pão-durice emocional, um muquirana do espírito. A minha alma líquida vazou aos litros e esgotou-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acaba o combustível e a força para tentar me aproximar. Longe, você está longe. Por deus, EU estou longe. Já não me vejo há muito tempo. Alguém me telefona e diz ter me visto em algum lugar em que não lembro ter estado. Estou distante de mim há tanto tempo que é bem possível que eu realmente tenha passado por lá e deixado de me contar. Perdi a intimidade com a meu íntimo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os cômodos estão incômodos, as paredes se contorcem e alimentam minha claustrofobia. Descanso ao trabalhar minha incapacidade de descansar. Dou razão à distância, ela é mais sábia do que eu. Jogo-me fora, estou obsoleto em frente a ela. Recolho-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respiro fundo e volto para casa. Estou em lugar nenhum e já cheguei longe demais.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-688443087866901920?l=comentariosabertos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/688443087866901920/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=688443087866901920&amp;isPopup=true' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/688443087866901920'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/688443087866901920'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/01/viso-incmoda.html' title='A Visão Incômoda'/><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='05712358080031572323'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-1143233957486223737</id><published>2008-11-26T04:34:00.001-02:00</published><updated>2008-11-26T04:34:39.070-02:00</updated><title type='text'>Homens de Bem</title><content type='html'>Homem de bem. 45 anos. Um homem que trabalha todos os dias, que tem uma fileira de camisas brancas no guarda-roupa, quase todas amareladas no colarinho. Camisas que chegam amassadas e suadas todos os dias, às seis e quarenta e cinco, se o ônibus passa no horário certo. Os limites da cidade castram qualquer fuga: Homem de bem, 45 anos, pai de família.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trinta e dois anos antes, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiz Fernando, 13 anos, mas pode chamar de Papagaio. Empina pipa como ninguém na rua. Brinca de bombeiro e é apaixonado pela Ana Cláudia, filha do dono da padaria, gordinha, linda gordinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antônio, 13 anos, pode chamar de Tonho. Na escola, ficaquieto, no canto da sala. Lhe falta um dente, mas ele não sabe qual - pelo menos sabe que sua boca não era bonita de ficar aberta. Desenha carros batidos, acidentes de carro, pedaços de carros amassados em qualquer pedaço de papel que tenha por perto. É apaixonado pela Luísa, que nem pensa em menstruar ainda, a última da turma, e nem suspeita de ser vítima de paixão alheia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nando, 13 anos, não chama de Fernando que ele não gosta. Odeia o pai. Joga futebol muito bem, mas já pensa em fazer contabilidade, pra ganhar dinheiro logo e sair de casa. Lê pouco, mas compra revistas toda semana, sabe que sempre tem alguma foto de mulher pelada em algum lugar, combustível para a imaginação e para horas a fio no banheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedro, 13 anos. Ninguém o chama pra nada. Usa mangas compridas o tempo todo, tem vergonha dos braços. E das pernas, e do rosto. Não usa roupas pra cobrir o rosto porque não existe disso por aqui. Queria ter nascido árabe, pra se enfiar num turbante. É pobre e sente culpa por não trabalhar ainda pra ajudar a família. É apaixonado por alguma menina feia, qualquer menina feia, qualquer uma que seja feia o suficiente pra um dia casar com ele, pra um dia transar com ele sem cobrar os quinze reais que a mais feia do puteiro lhe cobra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos eles, todos tão diferentes, tão peculiares, tão adolescentes, tão treze anos de idade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos se tornaram Homem de Bem, 45 anos, dono de várias camisas brancas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos se esqueceram de se tornar quem deviam ser. Todos viraram adultos por engano, engolidos pela mesma ambição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estranham os sonhos que tinham antes. Distraem assistindo televisão com a esposa, que já ameaçou separar. Indiferente separar ou não, qualquer coisa serve. Não existe crise de meia idade apenas pela meia idade, existe crise de identidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Impossível olhar no espelho e enxegar Homem de Bem. Papagaio, Nando, Tonho, Pedro, é assim que eles se vêem. Distorcidos pela evolução que pensam ter sofrido. Pela adultice que lhes engrossou a voz e os fez de espantalhos, plantados em algum jardim, exemplos de moral, exemplos de "o melhor que eu pude ser".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Manequins de Homens de Bem, 45 anos. A voz grossa disfarça a angústia. Homens de Bem, nada mais do que isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dezenove anos depois,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiz Fernando, 64 anos. Pode chamar de Seu Luiz. Se chamam de senhor, "Senhor tá no céu". Só não pode chamar de você, que aí já é desrespeito "com alguém da minha idade".Divorciou-se de uma magrela pra casar com uma mulher gordinha muitos anos mais nova: Maria Cláudia, neta do dono da padaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antônio, 64 anos, não pode mais ser chamado. Morreu aos 49, num acidente de carro. Deixou mulher e filha, a mulher frustrada pela falta de seguro de vida, a filha frustrada por ter de aturar a mãe sozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nando, 64 anos, mas só é chamado assim pela esposa. Faz academia desde os sessenta e está na melhor forma de sua vida. Pede pra chamarem de Fernandão, mas ninguém leva a sério. Peida em público de vez em quando, não consegue malhar o esfíncter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedro, 64 anos, sobrevivente de quatro casamentos fracassados (quatro divórcios bem sucedidos?). Agora é vereador, passou a se meter em política por falta de coisa melhor pra fazer, eleito por falta de candidatos melhores. Seu sobrenome virou dígitos e propaganda. Ternos lhe caem mal, mas escondem o que ainda pensa que deve ser escondido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos odeiam e perdoam a si mesmos em maior ou menor grau. O problema é uniformizar as intersecções. Todos concordam que a pior fase de suas vidas foi quando eram homens de bem, cidadãos responsáveis. Nem sempre é bom ser homem de bem, mas quem escapa?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-1143233957486223737?l=comentariosabertos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/1143233957486223737/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=1143233957486223737&amp;isPopup=true' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/1143233957486223737'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/1143233957486223737'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/2008/11/homens-de-bem.html' title='Homens de Bem'/><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='05712358080031572323'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-8892295422468507667</id><published>2008-10-26T14:48:00.002-02:00</published><updated>2008-10-26T14:52:58.956-02:00</updated><title type='text'>O ser idiota</title><content type='html'>Estava tão melancólico que quando fui interrompido por um momento de alegria, fiquei triste. Um flerte com a felicidade é bom, mas um relacionamento mais sério não costuma dar certo. O amor banaliza, todos ficamos iguais quando estamos apaixonados, assim como ficamos iguais quando estamos de luto. Nos extremos das emoções, todos somos a mesma racinha monocromática e alegre, ou monocromática e triste, sem relatividade e sem intersecções entre uma sensação e outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como uma foto, sem profundidade, plana e colorida, ou seu negativo escuro e cheio de sombras. E isso me apavora. A banalização, a humanização completa. Ser gente. Tem coisa mais assustadora que ser gente? Prefero ser melancólico, melancolicamente inventar alguma coisa que me separe da humanidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Personagem puro. Cenas, cenário, figurino. Chet Baker tocando, vinho na mão girando numa taça, cigarro baforado lentamente, cara de cu. Citar escritores obscuros. Rir de si mesmo, e depois dizer 'Idiotice minha, esquece.' Me esconder, me reservar. Passar horas sozinho, fazendo questão de que todos percebam que passo horas sozinho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pior que isso, pensar que é isso que me define. Acreditar que sem isso é impossível. Cair na vala da idiotice pra não cair na vala da humanidade. Que ciências humanas, o quê. Inventemos as Ciências Idiotas. Seremos todos únicos, todos melancólicos, todos pessoas especiais. Todos fazendo a mesma coisa e reclamando de não ter ninguém que nos entenda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afirmar que o futuro é nosso, que dominaremos o mundo. Somos os seres idiotas, aqueles que compreendem o contra-senso de ser humano e por isso comentam música e vinhos. Que seguram peidos, mas debatem calorosamente a repressão cultural sobre um peido. Falamos da hipocrisia da beleza, mas escondidos, nos arrumamos para parecer esquisitos o suficiente para causar fascínio, mas não demais para não causar repulsa. Estamos de bem com nossa feiúra, mas adoramos ganhar um elogio só pra falar "Não, são seus olhos". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os seres idiotas, nós, somos uma evolução dos seres humanos. Tudo é sutil, tudo é não-manifesto. Abraçamos a idéia da nossa não importância. Estamos em harmonia com a desarmonia, em acordo com o desacordo. Estamos eternamente em botão, florescer é vulgar e humano demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós, os seres idiotas, somos dependentes da nossa co-dependência. Jogamos nossa expectativa na não expectativa. Não assistimos filmes que todo mundo assista. Assistimos cinema alternativo, mas não os clichês do cinema alternativo, porque aí fica mainstream demais. Se o personagem é um ser idiota, melhor ainda. Atributos esquisitos, veneramos atributos esquisitos. Só não dá pra chamar de ídolo. Ídolos são humanos demais para um verdadeiro idiota.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-8892295422468507667?l=comentariosabertos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/8892295422468507667/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=8892295422468507667&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/8892295422468507667'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/8892295422468507667'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/2008/10/o-ser-idiota.html' title='O ser idiota'/><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='05712358080031572323'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-2738446633962577064</id><published>2008-09-22T02:23:00.004-03:00</published><updated>2008-09-22T02:42:54.496-03:00</updated><title type='text'>Um cálice</title><content type='html'>Há muitos anos derramava um cálice&lt;br /&gt;que implorava a Deus pelo que seja,&lt;br /&gt;e derramava o que talvez amasse,&lt;br /&gt;e derramava o que de mim rasteja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fazia limo, e à noite tossia&lt;br /&gt;toda a umidade que a secura ardia.&lt;br /&gt;Fazia festa o mofo que tecia&lt;br /&gt;todo o calor de sua existência fria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando abraçava, à noite, sua caneta&lt;br /&gt;abria arquivos de uma lua preta,&lt;br /&gt;Quando pintava com dor e palavras&lt;br /&gt;cenário cego, insípida paleta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonhava as cores de uma obra-prima&lt;br /&gt;em seus outonos de textura fina&lt;br /&gt;atualizava-se no nascimento&lt;br /&gt;do dia; a noite que o sol assassina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O seu sorriso desprendia pedra&lt;br /&gt;com a crueza que me transpenetra.&lt;br /&gt;Há muitos anos derramava um cálice&lt;br /&gt;que ainda hoje minha vida afeta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;("Fuja do jardim enquanto temos tempo"&lt;br /&gt;alguém gritou, quebrando o encantamento)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-2738446633962577064?l=comentariosabertos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/2738446633962577064/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=2738446633962577064&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/2738446633962577064'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/2738446633962577064'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/2008/09/um-clice.html' title='Um cálice'/><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='05712358080031572323'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-4779825054221595265</id><published>2008-09-16T03:10:00.001-03:00</published><updated>2008-09-16T03:13:20.308-03:00</updated><title type='text'>Concreto</title><content type='html'>O mundo é concreto e tudo que é feito de mundo vem da mesma fôrma. Tudo é rigido, tudo é intransponível. Tudo pode machucar. O humano, coitado, nasce macio. Sem pretensão. Cai de um tobogã celestial pra dentro de um mundo que o ricocheteia de um lado para o outro, que abusa de sua maciez, que é concreto demais para sua maciez.&lt;br /&gt;E cai várias vezes. Quando em queda-livre, torce pra uma hora chegar no chão. Melhor que o chão chegue o mais cedo possível. Dói cair, mas dói mais ainda cair depois que a gravidade nos acelera em direção ao espatifo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Melhor do que se revestir de uma casca que tenta imitar o ambiente, endurecer as próprias extremidades e tratar tudo o que está no cerne como delicado demais para ser exposto. Porque uma hora o chão chega. Uma hora a queda acaba, precisa acabar, e caímos feito melancia. A casca só serve pra esparramar o que é sensível, para dilacerar em pedacinhos irreconhecíveis e espalhar pelo chão o que um dia foi macio e sobrevivia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Iludimo-nos com a idéia de que o chão não chega. Chega. Chega pra todo mundo e quando acabamos de cair em um chão qualquer, começa outra queda livre em direção a outro lugar ainda mais irreconhecível. Sorte se caímos em grupo, todos de uma vez, e nos confortamos na maciez alheia - azar se nos machucamos na rigidez e pretensão das cascas que acreditamos nos proteger. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mundo é concreto mas é nossa casa - mesmo que temporária. Casas temporárias revelam o nosso mais profundo desconforto com onde estamos nos domínios que não precisam de casa, com nosso pensamento, com a cabeça que escolhemos pra habitar. Caímos no concreto e nos sentimos em casa. Estamos em queda-livre e nos sentimos em casa. Aí criamos uma casca em torno de nós mesmos e subitamente não estamos mais em casa. Estamos numa concha, transformados em caramujos que não tem forma e nem mobilidade decente. Enchemos de gosma o trajeto e demoramos a aceitar o que está por vir. E quebramos completamente na próxima queda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mundo é concreto e eu fujo da sua realidade rígida. O mundo é concreto e eu prefiro o imaginar macio. Que o próximo abraço do chão não vai doer - ou nem ocorrer. Viro uma sátira de mim mesmo. Um objeto em movimento que fecha os olhos e crê honestamente que não se move, com toda a beleza de sua ingenuidade. Com toda a vicissitude de sua inocência pisada tantas vezes. Inocência pisada não morre; resiste, se disfarça de força ou de sabedoria. Tenta criar mil proteções mas a única coisa que pode consolar de verdade é a certeza da queda. A certeza de que a dificuldade aumenta e carrega um prazer gigantesco no processo. Basta se render ao processo. E existe não se render? Rendo-me. E caio novamente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-4779825054221595265?l=comentariosabertos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/4779825054221595265/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=4779825054221595265&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/4779825054221595265'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/4779825054221595265'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/2008/09/concreto.html' title='Concreto'/><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='05712358080031572323'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-3761522767100395434</id><published>2008-09-05T15:49:00.000-03:00</published><updated>2008-09-05T15:50:05.656-03:00</updated><title type='text'>Prelúdio para a cegueira</title><content type='html'>- Tô com uma coceira filha da puta, cê não faz idéia.&lt;br /&gt;- Coça, ué.&lt;br /&gt;- Não consigo!&lt;br /&gt;- Como assim? Não alcança?&lt;br /&gt;- É.&lt;br /&gt;- Cê tá com ardência pra urinar?&lt;br /&gt;- É no meu olho, porra!&lt;br /&gt;- Ah, tá. Dentro do olho?&lt;br /&gt;- É.&lt;br /&gt;- Tipo, no globo ocular?&lt;br /&gt;- Não, na pálpebra.&lt;br /&gt;- Então coça!&lt;br /&gt;- É do lado de dentro!&lt;br /&gt;- Cê não tá com piolho?&lt;br /&gt;- No olho?&lt;br /&gt;- Nos cílios.&lt;br /&gt;- Piolho nem cabe nos cílios.&lt;br /&gt;- Pode ser um piolhinho criança.&lt;br /&gt;- Lêndea?&lt;br /&gt;- Ou um piolho anão.&lt;br /&gt;- Vá a merda.&lt;br /&gt;- Uma vez eu li num livro de auto-ajuda...&lt;br /&gt;- Lá vem bobagem... &lt;br /&gt;- Que coceira significa o espírito falando que quer sair do corpo, porque o corpo não aceita o espírito.&lt;br /&gt;- Eu não tô segurando espírito nenhum.&lt;br /&gt;- Não nesse sentido...&lt;br /&gt;- Cárcere privado é crime.&lt;br /&gt;- Você não tem fé.&lt;br /&gt;- Impossível ter fé com uma coceira dessas.&lt;br /&gt;- Já sei, pega um garfo.&lt;br /&gt;- O quê?&lt;br /&gt;- Um garfo. Ergue a pálpebra pra fora com a mão, coça com o garfo.&lt;br /&gt;- Tá, traz o garfo.&lt;br /&gt;- Aqui. Mas toma cuidado.&lt;br /&gt;- Vou tomar. Só não dá pra agüentar essa coceira.&lt;br /&gt;- Fica calmo e segura firme o garfo.&lt;br /&gt;- Aaaaah. Muito melhor agora.&lt;br /&gt;- Tá ajudando?&lt;br /&gt;- Muito. Nossa, nem dá pra falar o quanto.&lt;br /&gt;- Agora chega.&lt;br /&gt;- Só mais um pouquinho, peraí...&lt;br /&gt;- Aaaaaaai, um rato!&lt;br /&gt;- AAAAAGH, CHAMA UM MÉDICO!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-3761522767100395434?l=comentariosabertos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/3761522767100395434/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=3761522767100395434&amp;isPopup=true' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/3761522767100395434'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/3761522767100395434'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/2008/09/preldio-para-cegueira.html' title='Prelúdio para a cegueira'/><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='05712358080031572323'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-998378182441497324</id><published>2008-08-05T03:33:00.000-03:00</published><updated>2008-08-05T03:34:20.001-03:00</updated><title type='text'>A Bênção</title><content type='html'>No jardim, Maitê (a filha mais velha) empurrava a irmã no balancinho que rangia a cada vaivém da moça que não pedia para ir mais rápido, nem mais forte, nem mais nada. Gostava dos embalos de Maitê, que empurrava a irmã sem dar atenção ao que fazia, de tanta coisa que lhe passava pela mente. Várias coisas amenas, um caderno que estava acabando e precisava ser substituído, um recado que esqueceu de passar, um empurrão de leve no balanço; alguns avisos mais ríspidos da mente, um pouco de ódio por ter arrancado folha só pore educação, pra emprestar pra alguém que tinha pedido sem merecer receber folha nenhuma, uma pequena raiva de não ter o oi respondido por alguém, um empurrão mais forte - que a irmã no balanço ignorava, de tanta coisa que também lhe passava pela cabeça de criança, pequenas melancolias infantis enquanto a perna erguia e abaixava no movimento do balanço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era o que entendiam por família, a ignorância completa mas com um braço por perto que empurrasse quando necessário. Os pais, avançadíssimos, democracia na casa, todos ignoravam-se por igual. Reuniões de família que poderiam ser convocadas por qualquer membro, que discorreria por qualquer assunto sem ser ouvido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A notícia ainda mal absorvida, a mãe grita da cozinha para que as filhas entrem. O pai já sentado com os ombros caídos para fazer conjunto com o queixo. Com as filhas entradas, a mãe começa a reunião.&lt;br /&gt;- Estava falando com o seu pai e a gente resolveu pedir a opinião de vocês.&lt;br /&gt;As filhas entraram na pose de quem tem opinião importante.&lt;br /&gt;- Sobre o quê? - a mais nova.&lt;br /&gt;- Vocês duas já tem tamanho pra saber de onde as crianças vêm, certo?&lt;br /&gt;- Não é conversa de sexo, né? - Maitê.&lt;br /&gt;- Calma.&lt;br /&gt;- Eu já sei que preciso usar camisinha.&lt;br /&gt;- Não é isso.&lt;br /&gt;- Só burro pra engravidar sem querer.&lt;br /&gt;- Maitê!&lt;br /&gt;- E eu sou virgem mesmo.&lt;br /&gt;- Filha, deixa eu falar.&lt;br /&gt;- Vocês deviam parar de cuidar da minha vida, viu?&lt;br /&gt;- Filha!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maitê com cara de adolescente ouvindo, a mãe tornou a falar.&lt;br /&gt;- Eu e seu pai cometemos um pequeno deslize... E queremos saber se vocês querem ou não uma coisa. Pode ser bom, dependendo do ponto de vista, mas se vocês quiserem ir pra faculdade...&lt;br /&gt;- Vai direto ao ponto, elas não precisam de introdução - o pai, com voz e impaciência de pai.&lt;br /&gt;- Eu estou grávida.&lt;br /&gt;- Quê, mãe? - a mais nova com medo de perder o posto.&lt;br /&gt;- Mas vocês precisam decidir conosco se a gente tem essa criança ou não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mais nova franziu a testa, Maitê coçou o olho e a mãe tirou caneta e bloquinho de papel da bolsa enquanto o pai afrouxava a gravata (costumava chegar do trabalho e ir direto pro quarto arrancar as roupas de gerente de vendas e vestir calção rasgado perto da bunda e regata manchada, o momento de ser homem porco e não o vendedor perfeito, mas essa era uma ocasião especial e certa formalidade era necessária).&lt;br /&gt;Maitê pediu o porquê do bloquinho, a mãe respondeu que era uma para botar tudo no papel que ficaria mais fácil de decidir desse jeito. &lt;br /&gt;- Pronto, agora brainstormem.&lt;br /&gt;- Brainstorm virou verbo?&lt;br /&gt;- Feedbackem, então.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mais nova começou:&lt;br /&gt;- Estou entre o irmãozinho e um cachorro. Se não tiver irmão, posso comprar um labrador?&lt;br /&gt;- Eu não vou ficar limpando cocô de cachorro, filha.&lt;br /&gt;- Mas de bebê você vai? Não é justo. &lt;br /&gt;- Bom ponto, filha. Vou anotar no bloquinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vez da Maitê.&lt;br /&gt;- Eu adoro criança, sou completamente a favor... Mas eu tenho que ir pra faculdade, né? Não dá pra ficar jogando dinheiro fora.&lt;br /&gt;- Faculdade tá o olho da cara mesmo. - o pai.&lt;br /&gt;- E eu também tenho que fazer, daqui a um tempo. - a mais nova.&lt;br /&gt;- Outro contra pro caderninho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai.&lt;br /&gt;- Plano de saúde aumentou de novo essa semana, ia ser um aperto e tanto incluir mais um.&lt;br /&gt;A mãe anotou no bloquinho enquanto ditava o que ela mesmo escrevia, pausadamente.&lt;br /&gt;- Ex-ces-so de cus-tos. Tá, o que mais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que mais? A família se entreolhava enquanto pensava.&lt;br /&gt;- Só contras? Nenhum pró? - a mãe deu mais uma chance pra criaturinha ainda não nascida.&lt;br /&gt;- Bom, seria um ânimo pra casa... - o pai.&lt;br /&gt;- Cachorro faz muita bagunça - a irmã.&lt;br /&gt;- Eu posso trabalhar durante a faculdade, não seria justo matar uma criancinha indefesa. - Maitê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe sente um aperto na barriga e diz "Ai".&lt;br /&gt;O pai pergunta o que foi. A mais nova dá um pulo na cadeira. Maitê levanta a hipótese:&lt;br /&gt;- Foi o bebê?&lt;br /&gt;O pai quase se emociona:&lt;br /&gt;- Ele chutou?&lt;br /&gt;A irmã mais nova:&lt;br /&gt;- Meu irmãozinho chutou? Posso sentir?&lt;br /&gt;O pai chuta o balde e quase chora:&lt;br /&gt;- É uma bênção!&lt;br /&gt;A mãe se surpreende e resolve não dizer que foi só um desconforto causado por gases. Concordou:&lt;br /&gt;- É uma bênção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sendo uma bênção, resolveram ter um filho. Se perguntavam como teriam a frieza de abrir mão de uma vidinha tão importante. Um presente de Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas semanas depois, Maitê convoca reunião de família.&lt;br /&gt;- Gente, tô grávida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi direto pro consultório tirar. A família não suportaria tanta bênção no orçamento.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-998378182441497324?l=comentariosabertos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/998378182441497324/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=998378182441497324&amp;isPopup=true' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/998378182441497324'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/998378182441497324'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/2008/08/bno.html' title='A Bênção'/><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='05712358080031572323'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-3260342488778905151</id><published>2008-07-18T19:46:00.000-03:00</published><updated>2008-07-18T19:47:06.084-03:00</updated><title type='text'>Bonecas</title><content type='html'>No convite do casamento, uma foto dos dois abraçados mostrava aquela intimidade irritante que só pessoas prestes a se casar e recém-casadas têm. Noel com um sorriso que aumentava a distância entre as duas orelhas de abano (mal disfarçadas por um par de costeletas que envergonharia o mais bêbado imitador de Elvis), e Marina o abraçando por trás, com cara de quem estava doida para dar (dar de verdade, para mulheres como Marina, que se acham moderníssimas mas só dão de verdade, se entregando mesmo, só depois da aliança no dedo), e as enormes gengivas mais aparentes do que nunca.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ignorava que menstruaria rios, como nunca antes na vida, bem na noite do casamento, manchando as primeiras camadas de tecido do imponente vestido de noiva e impossibilitando o sexo (apesar de Noel insistir muito, "Vamos, bem, eu não ligo, com catchup é mais gostoso", acabou se masturbando na cama enquanto Marina tirava a maquiagem na frente do espelho). A primeira vez de verdade como mulher casada, só depois da metade da lua-de-mel. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez por começar (começar oficialmente, repito. Só fazendo sexo antes do casamento com uma mulher como Marina para entender como é fazer sexo antes do casamento com uma mulher como Marina) tão cambaleante, a vida sexual do casal foi fria durante os anos que se seguiriam. Ela botava a culpa no excesso de trabalho dele, ele botava a culpa na mulher que ela se tornara. "Você chega tão tarde que não dá tempo de ter vontade!" "Ter vontade de te embalsamar, só se for, com essa sua cara de velha." Ela não chorava, franzia o rosto, parecia ainda mais velha, e dormia chutando Noel de quinze em quinze minutos. Ele ficava culpado de não gostar mais da esposa. Vez em quando tentava explicar "É que você perdeu seu viço, sua doçura". Ela franzia até a bochecha depois dessas, de tanto que a testa se dobrava. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Revirando umas caixas antigas na dispensa, Marina achou sua velha casa de bonecas (não bem uma casa, mais pra um apartamento, uma república apertada, oito falsificações de Barbie dividindo quatro paredes com um espelho num canto e uma cama no outro, o cúmulo da superlotação e falta de humanidade). Lembrou tanta coisa, da vontade de ter uma aliança no dedo, e se sentiu tão burra, tão desiludida, tão enganada. Abraçou as oito bonecas de uma vez e começou a chorar. Nem chegou a ouvir Noel chamando alto o seu nome antes de também entrar na dispensa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que houve, Marina?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nenhuma resposta, só choro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Marina, cê tá bem? - chegou mais perto - Que cê tá fazendo com essas bonecas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nenhuma resposta, só as bonecas com cara de indignação no colo de Marina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Posso ver?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Minha! - Marina respondeu gritando, feito criança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- As bonecas é minha, sai daqui!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- As bonecas "são", Marina, "são".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sai daqui! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Noel se sentiu desrespeitadíssimo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não saio! - com voz de birra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sai! - com voz de birra com birra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não saio!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vai embora, não te quero aqui. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então me dá! - e arrancou uma boneca da mão de Marina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É minha, devolve!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, agora é minha, posso fazer o que eu quiser com ela! - e arrancou a cabeça da boneca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você matou a Rebeca, justo a Rebeca! Seu bundão! - chorava bem alto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vou matar todas essas bonecas feias! - e partiu pra cima com intensidade de criança de seis anos quando quer alguma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- NÃÃÃO! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vinte minutos depois, corpos de bonecas pra um lado, cabeças pro outro. O melhor sexo que fizeram em todo o casamento, e a última trepada antes do divórcio. Como quase todo casal que se separa, continuavam transando de vez em quando, mas nunca a mesma coisa. Sexo de verdade com a Marina, só com aliança no dedo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-3260342488778905151?l=comentariosabertos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/3260342488778905151/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=3260342488778905151&amp;isPopup=true' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/3260342488778905151'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/3260342488778905151'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/2008/07/bonecas.html' title='Bonecas'/><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='05712358080031572323'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-3087917958703571817</id><published>2008-07-09T02:01:00.000-03:00</published><updated>2008-07-09T02:02:21.230-03:00</updated><title type='text'>A antipática</title><content type='html'>Ela odiava títulos e não entendia como tanta gente no mundo utilizava-se deles o tempo todo. Um livro é tão cheio de palavras e de repente uma delas precisa ser a principal? Uma canção tem as palavras tão cheias de melodia, e é uma palavra falada que precisa dar nome a ela? Não lhe parecia justo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegou ao ponto de quase não usar substantivos. “Bom dia, pai” virava “bom dia” apenas, porque quem garante que naquela hora do dia o pai era mesmo um pai, e não era um garoto? Algumas frases eram quebradas. “Vais ao supermercado?”, e não “O senhor vai...?” ou “Tu vais...?”. Lhe soava cruel chamar um moço de moço, sendo que talvez o moço não fosse um moço naquela hora, e sim um carrasco medieval no corpo de um moço, e jogar palavras assim pra determinar o que alguém é partia-lhe o coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o tempo, aprimorou sua teoria. Chamar alguém de bonito sendo que na verdade é feio não era elogio, descobriu, era um xingamento. Era um desrespeito com a palavra “bonito” ser usada dessa forma. Começou a tentar achar as palavras certas, ser justa com elas, mas como as palavras seriam certas pra todo mundo se cada um pensa diferente? E ela nem podia perguntar pra palavra a opinião dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reduziu o próprio vocabulário em respeito às palavras. Achava “oi” uma palavra muito conveniente. Era dizer “oi” e quase sempre a resposta era um sorriso. Só não era sorriso quando a pessoa não estava de “oi”, estava de “tchau”, e quando a pessoa era de tchau era compreensível que não sorrisse. Todo mundo sabe que dizer “tchau” dói, a palavra em si dói, “tchhhhau!”, como uma mordida, um pedaço sendo arrancado, uma separação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reduziu os ois. Só dizia “oi” quando tinha certeza que a outra pessoa estava de oi, mas ainda assim alguns ois pareciam ser o primeiro oi de uma jornada que começou em algum “tchau” anterior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Largou os ois de vez, complicação demais tentar descobrir se a pessoa era de oi ou de tchau. E quem garante que se é só de oi ou só de tchau? Seria definir a pessoa como uma coisa só e ela odiava, odiava isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começou apenas a sorrir. Sorria para todo mundo. Nem todos respondiam, mas quando alguém respondia era sempre com outro sorriso. Não bastou; alguns sorrisos eram doces, outros ameaçadores, outros ainda tristes. Alguns sorrisos nem sorrisos de verdade eram. Até os sorrisos querem rótulos! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parou de sorrir, pra não rotular mais. Ficou conhecida como a antipática do bairro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-3087917958703571817?l=comentariosabertos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/3087917958703571817/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=3087917958703571817&amp;isPopup=true' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/3087917958703571817'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/3087917958703571817'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/2008/07/antiptica.html' title='A antipática'/><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='05712358080031572323'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-888001412450154628</id><published>2008-06-22T20:08:00.000-03:00</published><updated>2008-06-22T20:09:29.556-03:00</updated><title type='text'>Ponto</title><content type='html'>Não é minha intenção me analisar tão gratuitamente e tão cruelmente, mas às vezes eu me sinto como se tudo que eu pensasse passasse por uma peneira de pensamentos que me dita não o que é próprio e o que não é próprio, mas se o que eu tô pensando é mesmo o que eu tô pensando ou se eu tô fugindo do que realmente quero pensar ou se é só mais uma forma de sair da minha vida pra poder fugir pra minha cabeça. Na cabeça é mais seguro, pensar é mais seguro, viver não é seguro. Viver é pisar em terra firme, é machucar os joelhos, é pisar em caquinhos de vidro que só pinicam na hora mas deixam aqueles cortezinhos pequenos que inflamam e doem no conjunto, o baile todo, os caquinhos de vidro, as inflamaçõezinhas, os dois pés, os joelhos que doem de tentar pisar com força demais onde não se conhece o terreno, tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida - e eu odeio frases que começam com 'A vida', é generalista e pretenso demais - a vida é um terreno que não se conhece. E você anda ou olhando pro chão pra garantir que não cai, ou pro que te cerca pra apreciar a visão, mas os dois ao mesmo tempo não tem como. Ou é a paisagem ou é o chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nenhum deles deve ser realmente produtivo de olhar. Olha pro chão o tempo todo, e a paisagem te joga um cachorro na frente que te morde e te deixa caído. Olha pra paisagem, olha o céu bonito, e o caminho é tão sorrateiro que você tropeça e fica preso num bueiro até alguém ter a piedade de te deixar sair dali (se você quiser sair dali, digo. bueiros são úmidos, confortáveis, um refúgio e tanto, não são? E tão escondidinhos. Ninguém te incomoda dentro de um bueiro, tá todo mundo preocupado em não cair em um ou em não ser visto no próprio.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí eu tento resolver tudo por andar um passo com os olhos na paisagem, um passo com o olho no chão, mas os passos se confundem e eu acabo olhando pra minha cabeça bagunçada e pensando se vão me ver caminhando torto ou se vão rir de mim por estar tentando entender a vida num nível tão profundo quanto o de andar na rua, quanto a se andar é mais seguro olhando pra estrada ou pra paisagem, e fazendo metaforazinha vagabunda, olha só a profundidade. Adianta metaforazinha vagabunda? Porque nunca vai ser seguro, nunca vai dar pra olhar pra lugar nenhum, nunca, nós andamos às cegas. "Nós", olha a minha pretensão generalista de novo, EU ando às cegas, EU ando pensando no que vão pensar de mim e acabo nem andando direito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Outra coisa que eu odeio, estou odiando muitas coisas hoje, eu odeio prolongar metáforas. Jesus Cristo era um barbudinho bom de marketing que se deixou morrer porque queria viver pra sempre nos calendários de papel metalizado ao lado dos fogões das donas de casa do mundo inteiro. Jesus não prolongava metáforas. Jesus enfiava um significado qualquer, desenvolvia uns três personagens e ficava faceiro. O povo trepava em árvore pra ver Jesus falando, e vai ter gente acelerando os olhos e lendo o texto na vertical pra passar mais rápido porque eu não sou tão facilmente conciso e direto, sou cheio de curvas e sem significado nenhum. Ninguém vai trepar em árvores pra me ver porque minhas metáforas nem são metáforas direito, só uns reflexos da psicologia barata que a gente aprende lendo revistinha e vendo programete pretensioso de TV. Tudo bem, não trepem em árvores nem botem foto minha em calendário de lado de fogão. Não ligo. Eu odeio quem estende demais suas metáforas e odeio mais ainda que eu seja assim.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é tudo de mentirinha, essas porras todas da física quântica? Odeio terem inventado mais uma física. FÍSICA, gente, FÍSICA, mundo físico, planeta Terra, aqui, no sólido, no A+B, e inventam uma física que é abstrata. "Olhem, fulanos, tudo é abstrato, aquelas fórmulas que vocês não lembraram no vestibular não servem pra muita coisa, porque no final tudo é metafísica, tudo é quântico e vocês são todos gatinhos mortos/vivos dentro/fora de uma caixa/não caixa".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E isso só alimenta a tendência de ficar analisando e revendo e repensando tudo na cabeça, e não no corpo, já que tudo é imaginação mesmo e na caixola tudo serve, e no final a gente nem caminha, só cuida pra não cair em  buraco sendo que tá num buracão faz tempo e não percebe. Buracão/não buracão, digo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu fico nessas de me analisar demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas como eu vou me ver se eu não me analisar, me diga? Se me analisando eu já não me vejo? Se pagando alguém toda semana pra contar tudo o que me acontece de desinteressante e me analisar (mais uma pessoa me analisando, é tudo que o Universo precisa!), se assim mesmo eu minto, e desminto e filtro tudo duas vezes antes de deixar sair da minha boca? Porque se eu não filtro não sobra nada, só uma intenção de pensamento mal sucedida que não se deixa morrer e fica ali, sendo, pensando, até que eu o analise nos meus filtrinhos de meia tigela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É capaz de, com bastante tempo ignorando aquela matilha de pensamento, sumir tudo, mas eu gosto dos meus pensamentos, gosto mesmo. A não ser quando eles me fazem ficar acordado sem motivo nenhum e cheio de compromissos no dia seguinte, mas ainda assim, eu sou um trouxa por eles, eu deixo. Sou apegado em pensamento, e com pensamento é o pior tipo de separação, é tipo abandonar filho no frio e a criança batendo na janela e implranto "me deixa entrar de volta, pelo amor de deus, eu não quero morrer no frio, você não vive direito se não me analisar, me deixa entrar, me deixa! eu prometo que vou ser bonzinho", fica tudo ali, querendo ser pensado, e você não quer deixar, é um bangue-bangue, é ou eles ou você - eu, não tem nenhum você nessa história, caralho de mania de projetar em "vocês" imaginários aquilo que eu não quero pensar que eu tenho (e tão claramente tenho. desculpe tanta delonga, imagine eu com esses pensamentos todos me querendo fazer fechar a cortina e eu querendo abrir, e deixar tudo aberto e exposto, mas a cortina tem tendência a fechar e o esforço é tanto, e uma hora eu não faço uma coisa nem outra, fico ali como um peso de cortina porque tô exausto demais pra continuar o processo, e o processo se força a acontecer e é como se nunca acabasse essa tortura). &lt;br /&gt;Retornando ao ponto, não quero estender metáfora, nem metáfora tem aqui, sei lá o que eu tô estendendo, mas alguma coisa eu estendo que me faz perder o ponto, e nem tem ponto, qual o ponto de se escrever uma carta? um texto? não tem ponto, é tudo egocentrismo de querer ser lido e visto pelo endereçado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida é feito carta, mesmo - e foda-se o generalismo e a filosofia de banca de revista - não tem ponto, é um querer ser visto o tempo todo quando nem você - não você, eu, não tem você aqui, que droga - quando nem eu me enxergo! Não tem ponto. E aí cada um fica num bueiro prolongando suas metáforas e pensando se está sendo útil ou não. Não tem ponto, não tem ser útil, não tem ser interessante. Tem inflamaçõezinhas no pé que doem de vez em quando, mas nada tão terrível, tem pensamentos que irritam e voltam e persistem e machucam, mas nada que não se enfrente, tem vontade de ser aprovado por todo mundo (e todo mundo, todo mundo, todo mundo mesmo, quem gosta de vermelho e quem gosta de azul, e aí eu acabo como uma mancha roxa que nem se agrada e sendo só um hematoma), mas nada tão péssimo assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema, acho, é não ter ponto. Nem de partida, nem final, nada, nenhum ponto, só um círculo chato de rotinas cansativas. Ponto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-888001412450154628?l=comentariosabertos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/888001412450154628/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=888001412450154628&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/888001412450154628'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/888001412450154628'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/2008/06/ponto.html' title='Ponto'/><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='05712358080031572323'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-8731619867871642278</id><published>2008-06-03T11:34:00.000-03:00</published><updated>2008-06-03T11:35:43.659-03:00</updated><title type='text'>Pintura</title><content type='html'>Adriane tinha seus raros momentos de lucidez quando resolvia gastar um grande pedaço de seu salário (grande demais pra ser gasto nisso) em duas telas grandes de pintura, tintas e pincel. Metódica, assim que vestia o feioso macacão jeans que podia sujar o quanto quisesse, ia de sua placidez habitual a uma fúria imensa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já imensamente furiosa, abria as mãos e batia com força em cada um dos tubinhos de tinta. A tinta deveria apanhar. Não adiantaria nada que ela se entregasse ao doloroso processo de arrastar suas emoções para fora do corpo e para dentro de uma tela, de transformar suas aflições em imagem, se as cores que representariam tudo isso não tivessem passado por dor semelhante. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Como um ator que nunca sofreu e não carrega no rosto a angústia necessária para o personagem - para qualquer personagem, não há personagem sem angústia. Jamais defenderia que uma pessoa se torna melhor por ter sofrido, aliás, é melhor pessoa quem não se dá o trabalho de sofrer, mas um ator que não sofreu não pode ser crível. O personagem tem angústia, cadê a angústia no teu rosto, ator?)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim eram esmagadas as tintas, que resignavam-se e se tornavam migalhas palpáveis do que Adriane sentia. Era a sua glória fazer a tinta sofrer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na primeira tela, Adriane deixava-se fluir. Atirava tudo que estivesse dentro de si para dentro da tela. Passava o pincel, passava a espátula, passava a unha fundo na tela, deixava marca. Escrevia pequenas frases, o que lhe viesse à mente, com a maior agressividade possível. "ESTOU COM FRIO". "ODEIO MEU PAI". "CHUPARIA O PRIMEIRO QUE ME CANTASSE". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí pintava por cima de tudo, mas mesmo com todo o seu esforço as frases persistiam lá, soberanas à segunda demão, rindo da tentativa débil de serem encobertas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ódio de Adriane culminava em algumas lágrimas dolorosas, daquelas que não querem ser lágrimas e sim pontapés, e ela desabraçava a tela com força, e quebrava a estrutura, e gritava Boceta! e jogava num canto pra depois jogar no lixo (num daqueles sacos plásticos pretos, pra ninguém ver que ali estava um cadáver de pintura).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como um dia de sol é subitamente interrompido por uma tempestade, a fúria de Adriane era (cabrum!) interrompida pela volta da placidez de lei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os tubos de tinta tão maltratados e ainda pela metade voltavam ao trabalho quando Adriane (a plácida, completamente diferente da lúcida, a furiosa) carinhosamente os espremia para pintar a outra tela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro um azul indefinido no fundo deixando um buraco branco no meio da tela, aí uns pequenos esboços de verde, aí uma flor, aí outra, e ficava pintado um buquê de flores meio esquisitas, com cara de quem fez esforço demais pra ficar bonito, e a assinatura no canto inferior direito. "Adri" em letra cursiva e uns risquinhos por cima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um passo para trás e Adriane admirava o buquê pintado e pensava "Ah, minha arte!". O segundo quadro ela não jogava fora, esperava secar, cuidadosa, e pendurava na parede da sala junto com os outros quadros de flores.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vinha uma visita de vez em quando e elogiava. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fúria, jogada no lixo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-8731619867871642278?l=comentariosabertos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/8731619867871642278/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=8731619867871642278&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/8731619867871642278'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/8731619867871642278'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://comentariosabertos.blogspot.com/2008/06/pintura.html' title='Pintura'/><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='05712358080031572323'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>10</thr:total></entry></feed>