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sorvete de ego pra todo mundo!

O Rei do Penico

7.10.09
A vida era uma linda sucessão de descobertas divertidas até o momento da descoberta não-divertida que me mudou a vida: do alto do meu penico, eu dominava o mundo.

Só podia, só assim se explicava a aflição da minha família para que eu saísse dali: minha mãe, meu pai, minha avó, todos suplicantes, ajoelhados, falando "Vamos lá, campeão, você consegue! É só empurrar!". Isso no começo, lógico. Depois de alguns minutos de insistência, porém, não suportavam mais o meu olhar condescendente de quem manda, e tentavam usar de tirania. "Se você não fizer agora e quiser vir depois, eu não te trago!".

Bobagem deles. Era eu quem fazia as regras do jogo. Não me levavam depois? Tudo bem. Mas no momento que me esquecessem sem fralda, era a hora do ataque. Bombardeio químico. Não me importava em nada com o trabalho que eles (eles, o inimigo) teriam para lavar minhas calçolas.

O poder traz desafios, meus caros. Mas eu sempre fui meio Napoleão do meu bumbum, e conquistava outros territórios. Não me bastava o penico. Eu queria o mundo. O tapete de sala. O vaso de plantas na sala de jantar. Nenhuma terra era impossível para o meu domínio. Só não atingi outros continentes por uma questão de logística.

Aliás, talvez não tenha conquistado outros continentes por uma questão de incontinência, mesmo. Quem diria que contrair o esfíncter seria tão difícil. Tudo bem, eu sou persistente. Mamãe implora para que eu vá. Não vou. Um bom governante sabe resistir aos apelos do povo, quando estes não lhe são interessantes. Com toda a segurança do mundo, eu seguro.

É difícil a ponto de deixar escapar uns punzinhos, e quem não deixa? Mas eu no máximo disfarço com um sorriso besta - não tanto pelo pum, mais pelo rosto esperançoso de mamãe, que esperava uma manifestação mais concreta do meu poderio.

Mas tudo na vida muda e, talvez por alguma atitude relapsa no meu governo, fui transferido para o vaso sanitário. Pensei ter sido promovido, mas, que nada. É um reino de vários reis. Sou um mero vassalo do meu intestino.

Nada que tenha me irritado muito, até o dia em que mandaram que eu parasse de brincar com meu cetro na frente das visitas.
Por Flávio Voight às 11:49 PM :: E-mail :: 2 Comente Abertamente :: permalink


Diesel

11.9.09
Era um daqueles momentos em que você percebe que tem 19 anos e se sente velho. E se sente culpado por se sentir velho, sabendo que em cinquenta anos você vai olhar pra trás e rir do sentimento de agora. E talvez se sentir muito mais jovem do que você está se sentindo.

O pior de estar num momento ridículo é estar consciente do ridículo do momento. É como elevar o ridículo ao quadrado. Aí você apalpa o ridículo como se ele estivesse completamente fora de você, como se isso lhe excluísse dele, e tenta passar adiante ao próximo momento de sensatez.

Só que naquele dia, ele apalpou o ridículo, sentiu como o ridículo estava maduro, e tascou-lhe uma mordida. O fruto da árvore do conhecimento do que é ridículo. Naquele momento, apercebeu-se de como o ridículo era suculento. Se rendeu ao momento.

Juntou umas poucas coisas e correu pra beira da estrada. Dedo esticado, mão balançando. Sabe por quê os caroneiros balançam a mão tão vigorosamente? Para não perceberem que tremem. O dedo esticado pra apontar o caminho que se finge saber. Ele não se dava conta do nervoso. Sabia do passo que estava dando. Sabia que podia ser assaltado, seqüestrado, assassinado. Estuprado não, porque no cu não passava uma agulha. Sabia que podia dar tudo errado.

Mas havia uma neblina de calma na sua vista que permitia seguir com o plano de viajar sem planos. Não precisou esperar muito: logo um caminhão encostou, com seu motorista barbudo de braço esquerdo vermelhíssimo, o olhar de quem não sabe o que é dormir direito.

Embarcou. Caroneiro inexperiente, pensou que precisava puxar assunto. Ainda não tinha se acostumado com a música da estrada, com a percussão dos pneus pulando nos buracos do asfalto. Com a poesia do cheiro de óleo diesel.
- Tá quente, né?

O caminhoneiro se deixou levar pelo papo furado.
- Pra caralho.

Muito comunicativo, ele. O caroneiro fez esforço:
- Se bobear, chove no fim do dia.
- Se bobear chove. - e coçou a barba.
- Gosta de dirigir com chuva?

Não teve resposta.
- Gosta de dirigir com chuva?

Mais alguns segundos de silêncio, até que o caminhoneiro fez um movimento súbito e abraçou o volante com as mãos grossas. O caroneiro percebeu que não fazia sentido distrair um homem que já caía de sono e ainda dirigia. Tentou respirar um pouco daquela calma que sentiu antes da carona e ficou observando a estrada.

E se tocou que o que fazia sentido ali era a estrada. Não eram as cidades pelas quais passaria, não eram as paisagens que encontraria. Era a BR, era o asfalto e o pó. Era o diesel.

Começou sem destino, esperando encontrar um no meio do caminho. Só pra perceber que destino é uma coisa completamente desnecessária. Descia aqui, chacoalhava a mão e subia em outro carro. Em outro caminhão. Em outra vida.

Quem ia de carro, sozinho, dava carona com um medo só superado pela solidão extrema que justificava parar e acolher um completo desconhecido. Algumas dessas pessoas até que queria que o desconhecido fosse malvado, queria sofrer uma malvadeza, só pra não precisar continuar enfrentando a estrada.

Mas a cada carona ele explicava, sem precisar de mais do que olhar pra frente, que a estrada era cheia de ensinamentos. Não uma professora, professoras mastigam demais. A estrada era um livro. E ele era um autodidata da estrada.

E foi vivendo desse jeito: sem parar em lugar nenhum, só em movimento. Faixas brancas e amarelas que se sucediam sem fim. A cada dia percebendo como foi ingênuo no dia anterior.

A insensatez que deu início à viagem fez sentido.

Morreu um tempo depois, num acidente. Rosto e asfalto próximos e espalhados, como se fossem uma coisa só. Como um amante que morre num momento de clímax. Não chegou a experimentar a velhice, e nunca mais se sentiu velho, a estrada não envelhece. No fundo da boca esmagada, um gostinho de ridículo.

A estrada sentiu saudades, mas seguiu em frente.
Por Flávio Voight às 4:18 PM :: E-mail :: 4 Comente Abertamente :: permalink


Farinha

11.8.09
Estou sendo perseguido. Eu vejo minha sombra e eu vejo minha imagem espelhada nos vidros, e eu sei que isso me persegue. Eu lembro da minha família, ela também me persegue.

O meu futuro me persegue muito. Ele me caça, ele quer me ver morto. Ele quer repetir a história desgraçada de tanta gente que veio antes. Gente que fez rimas bonitas e que trabalhou das oito às seis, e que recebia salário e que se preocupava com o que os outros pensavam.

Viraram todos farinha. A farinha me persegue. A farinha quer me alimentar, quer que eu vire tão pó quanto eles. Não existe forma de fugir do pó, mas dos pós que eu possa ser, que não me torne farinha. Que seja cocaína, que seja glitter. Que seja proibido.

A atmosfera é azul e etérea, nublada com suspeita e ingenuidade. Eu estou escondido em uma casa abandonada, porque estou sendo perseguido. Aqui, debaixo dessa mesa, estou seguro. (Não seguro do que me persegue, mas seguro do que eu penso. É como dormir assustado com um ladrão querendo pular a janela, eu puxo o cobertor o mais alto possível e escondo o rosto. Eu me rendo, eu combino com o ladrão "Venha aqui, roube o que quiser, eu finjo que estou dormindo e você não me mata, e finge que acredita no meu sono e finge que não ouve os meus soluços",)

Eu me obrigo a ficar coberto, eu não posso ser visto. Eu estou sendo perseguido, bolas. O céu está lá fora, e está doido pra me atacar. Ele quer me arrancar pedaços, ele quer que eu ache as estrelas bonitas como todos os mortais acham. Não vou achar, As estrelas são feias.

As estrelas são poucas, elas não são suficientes, elas não me impressionam. Elas mal brilham. Elas não me impressionam. Eu não sou mortal, eu não me impressiono com as estrelas. As estrelas são repetitivas, elas não podem me hipnotizar.

Por não ser mortal me escondo, por não ser mortal me protejo. Estão me perseguindo e querem me matar.
Por Flávio Voight às 4:51 PM :: E-mail :: 4 Comente Abertamente :: permalink


Hortelã para Cristo

28.7.09
E fui tentando fazer as coisas de sempre de um modo diferente. De algum modo inspirado na minha superstição de coisas pequenas - grudar chiclete na cruz é comigo mesmo, mas e se ontem eu grudei um chiclete vermelho nela e fui assaltado? Hoje, só pra garantir, vou grudar um verde. Hortelã para Cristo.

É como começar um texto pelo título: os títulos são rígidos, os textos são fluidos. Toda a fluidez do texto precisa se ancorar na rigidez do título. Palavras lânguidas, períodos infindáveis, emoções impossíveis de descrever descritas palavra por palavra só por presunção de quem escreve? Prenda-as a um título sórdido e tudo está remediado. Em algum lugar se cria uma ironia que justifica qualquer baboseira dita.

Deu certo? Repita o chiclete verde na cruz. Deu certo duas vezes, na terceira não? Veja, é preciso saber construir superstições. O que mudou de um dia pro outro que você não achou interferir? Alguma coisa interferiu.

Fez sexo oral no dia anterior? O chiclete tem o efeito diferente nesse caso. Você grudou o chiclete na cruz de cima para baixo ou de baixo para cima? Importantíssimo. Guarde os detalhes, boas superstições se fazem nos detalhes.

Tente jogar uma pedra num gato preto na minha frente pra ver se eu não te atiro uma pedra bem maior, na nuca. Superstições não podem envolver animais. Mantenha-se em detalhes que não possuem vida.

Medo de ser assaltado? Logo antes de passar pelos dois simpáticos meninos maltrapilhos que te esperam com a mão no bolso na esquina, faça quatorze minissinais-da-cruz com o indicador da mão direita em uma pequena superfície do seu corpo. Mantenha a discrição. Cuidado, fazer quatorze minissinais com o fura-bolo pode ser fatal. Fazer catorze minissinais, o apocalipse.

(Não precisa ser cristão para fazer o ritual. Dispa-se dos seus preconceitos religiosos, estamos falando de segurança pública!)

Um bom sistema de compensação é muito importante. Quando desequilibrar as suas energias com uma superstição mal executada, seja ligeiro em repará-la com alguma ação semelhante, mas de valor contrário. Explico: Durante um minissinal-da-cruz, você topou com o pé esquerdo no meio fio. O que fazer? Dê um jeito de topar também o pé direito. Da mesma forma, na mesma intensidade. Outro minissinal (agora sim, com o indicador da mão esquerda, pra contrabalançar), e volte ao ritual anterior.

Acumulo milhões dessas superstições pequenininhas. Já me disseram que eu tenho TOC. Eu respondi '-TOC, quem é?'. Só pra completar a frase. Pra bom entendedor, meia palavra basta. Para um supersticioso, nada de deixar a frase pela metade.

Me ocorre também que grudar chicletes na cruz pode ser uma ótima maneira de utilizar chicletes mascados, inúteis para reaproveitamento ou reciclagem.

(Pequena pausa pra contar de uma vez que fui a um restaurante árabe e fui recomendado pelo dono do estabelecimento a comprar um chiclete sabor pimenta, que segundo ele era uma maravilha. Obedeci e adorei, adoro pimenta. Também segundo o dono, se eu guardasse o chiclete enrolado num papelzinho na geladeira, no dia seguinte o sabor voltaria. Fiz a experiência - o gosto não voltou. Árabe também entra no balaio popular de que judeu é pão-duro? Será melhor corrigir a fala popular e mudar nosso preconceito para 'proveninente do oriente-médio pão-duro'? É importante no Brasil de hoje termos preconceitos que não sejam limitados por fronteiras.)

Retomando minha teoria: grudando todos os nossos chicletes mastigados em cruzes, formaríamos gigantescas cruzes. Um símbolo da nova cultura brasileira. A fé, a fé de Aleijadinho, a fé dos nossos artistas interioranos desconhecidos, a fé nas megacruzes de chiclete.

Servem de ponto turístico e pra contrabalançar os minissinais-da-cruz que eu faço cada vez mais, com medo de ser assaltado.
Por Flávio Voight às 3:31 AM :: E-mail :: 1 Comente Abertamente :: permalink


A Gorda

15.7.09
Como quem descascava uma mexerica, a gorda procurava amor. Pedacinho por pedacinho da casca rasgada e arrancada, a acidez sentida por debaixo das unhas, a avidez de engolir os gomos. A gorda era gorda de tanto amor que tinha para dar.

Se apaixonava, vez em quando. Por alguém acessível, ninguém que fosse fora de seu alcance (não há limites pra sonhar? experimente ser gorda e sonhar com um namorado lindo como o da sua amiga magra). É como se as pessoas se separassem em camadas de beleza, tolerando pessoas de nível semelhante, ignorando os intocáveis feios e fingindo não sonhar possuir alguém superior.

Sem hipocrisia, sem essa de todos somos iguais. Alguém mais feio que você tem chance contigo? Honestamente? Sem ter muitos dígitos na conta bancária? E esse era o problema da gorda, ela não sabia fingir. Não sabia fingir que não queria aquelas pessoas tão inalcançáveis, as bonitas. Não ousava quebrar as regras, ela não interagia com os mais bonitos - eles a excluiriam. Até as amigas, as amigas eram todas tão feias quanto. A diferença da gorda para com as amigas - algumas também gordas - era que ela não aceitava a própria camada.

Os bonitos são os magros, não são? Ela não era magra. Os bonitos são os magros, não são? As amigas tinham namorados feios. A gorda não queria um namorado feio. Qual o sentido de namorar se não o de contemplar uma beleza, mesmo que só você a veja, na outra pessoa? E a gorda, azarada. só via a beleza no que todos concordavam ser belo.

Na casa da gorda, dois cachorros. Um era de raça, um amor. Brincava, corria, uma simpatia, não havia quem não gostasse. O outro, vira-lata, fora socorrido pela família depois de ser atropelado e que, por esquecimento, acabou ficando ali mesmo. Um poço de carência, o vira-lata. Chorava alto, pulava em qualquer um que chegasse perto, implorava atenção.

A gorda amava o de raça sinceramente, porque este se fizera amar. O vira-lata era desprezado pela família inteira, mas a gorda também o amava. Por obrigação. Os olhos pedintes do vira-lata refletiam o olhar desesperado por amor da gorda. Era uma corda-bamba, porque se identificar com um vira-lata carente não é tão gostoso assim: ela odiava o vira-lata, quando esquecia que devia amá-lo. Cachorro mais insolente, chato, pidão.

Tinha um amor que amava há algum tempo, porque de vez em quando a gorda via beleza em alguém do seu mesmo nível, sem perceber que caía na armadilha em que suas amigas já haviam caído. Só um. Ele era magro, e ela amava isso a respeito dele. Tinha um corpo quase bonito, uma postura quase elegante. O rosto era um desastre, mas até que os dentões tinham seu charme.

Conheceram-se num ônibus, que ela pegou pra ver uma tia no interior. Os dois sentaram lado a lado e ele ousou puxar papo. Pouco depois, consumida por desejo e vontade de transigir, ela se entregou pela primeira vez ali mesmo, o banco de ônibus testemunha de umas poucas gotas de sangue e alguns gemidos abafados.

Trocaram telefones, mas nunca voltaram a se encontrar. Conversavam longamente ao telefone, fantasiando um reencontro. Combinaram casar. Combinaram que começariam uma vida juntos, e ela levaria o vira-lata (até os vira-latas merecem um dia de protagonista). Com o tempo as ligações foram ficando esparsas, e eles se perderam numa curva que a vida deu. Coincidências não resistem ao destino.

Mesmo muito depois, ela se lembrava. Ela não foi ignorada. Ela não foi sempre só a gorda. Ela foi amada. (Se ele realmente a amou, não importa. Talvez tenha amado. De qualquer forma, a gorda acreditava sinceramente nas memórias).

Quando, depois disso, recebia uma proposta amorosa de alguém, a resposta padrão era não. O amor - que ela já tinha experenciado, pensava - aparece, ele não precisa de propostas. Ah, e quando ele aparece são horas no telefone contando todos os defeitos que tem, pra que o outro diga "Você não é assim" e você sobe às nuvens, estufado pelas ilusões macias que ouviu. O outro, coitado, pensa que você é perfeito. Você, esperto, sabe que o outro é perfeito, e de todas as formas tenta evitar que ele descubra suas verdadeiras imperfeições.

Foi visitar a tia novamente, muitos anos depois. A tia não tinha importância na sua vida, era só uma tia, e a gorda não se importaria se ela fosse só mais uma tia no porta-retratos da estante. Era a viagem que tinha valor, as horas no ônibus lembrando da sensação de roçar silenciosamente no banco suado, a vez que fora amada. A única vez.

Na casa da tia, abriu um jornal esperando que o dia passasse rápido, para entrar no ônibus novamente. Na coluna social, o garoto do ônibus casando com uma outra mulher. Ainda mais gorda. A gorda se sentiu traída. "Tudo bem que eu não sou tudo isso, mas me trocar pela ainda mais gorda?". Era pior que traição, era trair e humilhar. Chorou no banheiro, enquanto passava grossas camadas de batom nos lábios gordos, tentando parecer revigorada. Ficou parecendo uma palhaça, os olhos vermelhos combinando com a boca. A palhaça mais triste que já fora vista.

Voltou para casa, com nojo do ônibus, um enjôo horrível que insistia em fazê-la suar no banco, lembrando-a mais ainda do dia em que fora usada (não, não fora amada, pensava ela, fora usava, roubada, profanada); Chegando, foi cumprimentada alegremente pelo cachorro de raça. A gorda se ajoelhou, olhou para os seus olhos orgulhosos de cão comprado, encheu-se de raiva e atacou o cachorro com um soco. Soco mesmo, desses dados em cara de gente. Com força, bem no focinho idiota do cachorro. Como era arrogante! Pois era só um cachorro, não devia ser arrogante.

Enquanto olhava o cachorro de raça tentar, perplexo, se reerguer, sentiu uma forte dor no braço. Era o vira-lata, com olhos de fúria que ela nunca tinha visto antes, defendendo o amigo. Puxou o braço, e o vira-lata parecia ter voltado ao normal, pidão e carente, como se nada tivesse acontecido. Abanava o rabo e chorava, o pênis exposto pelo cio.

A gorda cobre o braço como pode, algum sangue escorre. A mordida não fora tão profunda.

Puxou o vira-lata direto pelo pescoço, sem o levantar do chão, e o trouxe para dentro da casa. Era a primeira vez que entrava na casa, lugar antes reservado para as pessoas e cachorros de raça. Foram para o quarto. O cachorro assustado, tentava acompanhar a velocidade da dona, mas as patas não conseguiam direito e ele era arrastado.

Ela chorava. As lágrimas escorriam pelo canto dos olhos vermelhos inchados, lambiam suas bochechas vermelhas e gordas e morriam nos lábios, borrando o batom em sua boca vermelha e pintando de vermelho também seu queixo (o primeiro de seus vários queixos de gorda).

Lembrou dos doze anos de idade. Na escola, escutou sem querer um professor dizendo "Coitada dela, ela tem um rosto tão bonito, pena que é gorda". Nunca ouviu alguém falar "Coitada de fulana, tem um rosto tão bonito, pena que ela é magra demais". Gordas sempre tem o rosto bonito.

Arrancou as roupas do corpo e puxou o vira-lata para cima de si. O cachorro, instintivo, penetrou-a com força. Ela gritou de dor. Ela também não entendia. O cachorro assustado com a atenção inesperada e com o grito da dona, chorava. A gorda, sem condições de pensar, gemia. Sentia nas canelas gordas que quase não existiam (pareciam uma extensão das coxas, que só terminavam em pés enormes e roliços que lembravam patas de elefante) o peso das patas do cachorro, o pêlo sarnento dele se misturando com a pele dela.

O cachorro é o melhor amigo do homem, e ela estava confusa por misturar amor e amizade. Ele, chorão e carente. Ela, chorona e carente. Almas gêmeas. Pela segunda vez, a gorda foi amada. O amor de um cão é sempre fiel.
Por Flávio Voight às 11:11 AM :: E-mail :: 5 Comente Abertamente :: permalink


O inferno

9.7.09
Eram duas mil pessoas dentro de um ônibus (pelo menos era apertado como se fossem. Se alguém soltasse um pum ali, ele voltaria cu adentro procurando um lugar mais agradável pra poder respirar). Se a voz do povo é a voz de Deus, naquele momento Deus resmungava:
- Puta que pariu! Deus me livre do valor dessa passagem, alguém aí começa a andar! tem gente passando mal por aqui, faz favor! O preço da passagem tão alto e a gente se espremendo?

O homem mal conseguia puxar o ar. Sorte ter o pescoço comprido e estar num patamar superior ao resto das pessoas. Era como se conseguisse enxergar o ar ficando turvo de tanta gente querendo respirá-lo. Ironicamente, as janelas estavam todas fechadas, vedando a possibilidade de um ventinho resgatador chegar para debochar do aperto daquela gente. Era tanta gente num lugar só, que se ele desse um pulinho, não voltaria a tocar os pés no chão.

Criança chorando. (Devia ser uma criança invisível, o choro era abafado e ela não parecia estar em lugar nenhum. Quem sabe seguiu o exemplo do pum e engatinhou vagina adentro na mãe, lutando por um lugar mais confortável; como se ouvia o choro não sei, quem sabe era uma vagina de boa acústica.)

Chuva do lado de fora. A mesma chuva que o fez pegar o ônibus naquele dia, pra não se molhar. A fila pra entrar no ônibus era enorme, e ele se molhou mesmo assim. Pelo menos chegaria mais cedo em casa. Mão no bolso de trás, pra segurar a carteira. Não dá pra dar bobeira nos dias de hoje.

Parecia um auto-pervertido, um masturbador da mão na bunda. Enquanto o companheiro do lado aproveitava do pouco espaço pra se esfregar na bunda senhoril que o sucedia (sem perceber que um outro companheiro atrás se esfregava na sua), ele apertava forte a mão na bunda. Quase dez reais e um xerox autenticado da carteira de identidade na carteira, ele não podia se dar ao luxo de ser roubado.

O bom da superlotação de um ônibus é que se quebra um pouco do gelo que os ônibus geralmente têm. Ônibus pode ser mais frio do que um elevador, porque elevadores não envolvem competição. Ônibus são as olimpíadas da frieza. Ninguém olha no olho de ninguém - maldito aquele que inventou as cadeiras de frente uma para a outra, forçando que o passageiro fique olhando para o lado pra não precisar fingir um meio-sorriso quando os olhos por acaso encontrarem o do passageiro que senta à sua frente. Ônibus apertado é a iluminação espiritual, uma aglomeração de almas capaz de superar qualquer procissão. E todo mundo pede pelo amor de deus por um espacinho a mais. É a definição mais perfeita de fé.

(Por exemplo, a fé de se conseguir espremer até a porta quando se chega no ponto de descida. Comece três quilômetros antes, puxe a cordinha assim que o ônibus passar do ponto anterior e torça, reze, dê a luz ao seu próprio menino Jesus, e ainda assim corra o risco de não conseguir descer no seu ponto.)

Ele sorriu. Ele não ligou pra mão que lhe beliscava o rim (ou era a costela de outra pessoa, mas que cutucava, cutucava). Ele não ligou pro congestionamento que o fez demorar mais para chegar em casa do que se tivesse ido à pé. Ele não ligou pela loucura financeira que cometia pagando o passe do ônibus quando poderia muito bem ter caminhado aquelas setenta e cinco quadras e ainda queimado umas calorias. Ele não ligou pra nada. Só segurou bem a mão na própria bunda, e enfrentou o ônibus.

Quando desceu, sentiu a própria calça cair.
- Puta que pariu, alguém arrancou meu botão!

Ônibus são o inferno.
Por Flávio Voight às 11:43 PM :: E-mail :: 2 Comente Abertamente :: permalink


O Fruto

14.6.09
Primeiro eu falava mais do que devia, pois era exatamente isso que eu devia fazer. Me conduzi a um estado de ignorância fingida que de tão bem fingida passou a ser ignorância verdadeira. A ignorância sempre é verdadeira, a ignorância contém a verdade e só conhece a verdade quem é ignorante.

De tão bem fingido, ignorei a minha ignorância, incapaz de saber que tudo em mim já era perfeito como podem ser perfeitas as coisas feitas de barro e sopro divino que andam distraídas pelo planeta. E me acreditei errado. Pela palavra, tornei-me imperfeito - comi o fruto da palavra, que me deu a capacidade de enxergar o bem e o mal - Bem e Mal não existem, esse é o grande pecado, a alucinação original de que algo pode existir e ser errado ao mesmo tempo. Não existe errado na existência, errado é não existir.

Entorpecido pelo fruto, tentei corrigir meus pretensos erros calando a minha boca, tão acostumada a falar demais. O problema de acreditar em erro é que também se começa a acreditar em correção, e é impossível corrigir o que nunca foi errado. Fingi ser o que não era (pois o que eu era não podia ser divino, era falho e fraco e humano), e de tão bem fingido, calei mais que a minha boca: calei minha capacidade de falar e me retornar, cego, à ignorância.

Como numa máquina de escrever, bati na mesma tecla mil vezes. O erro já estava lá, pintado na folha, mas eu insisti em bater em outra tecla, repetidamente, com a força que angústia dá, borrando outra letra no lugar da original errada. Por mais errada que fosse a folha original, era imaculada, e a correção só lhe manchou e enfeou. Fiquei manchado e enfeado eu mesmo.

A alucinação do fruto é persistente e contínua, e continuei a ver o erro em mim como algo a ser extirpado, arrancado como uma vesícula cheia de pedras. Agora, meu silêncio era o defeito. Me fingi espontâneo e cheio de coisas a dizer, mas não consegui fingir bem o suficiente. Abrindo a boca, escapava de mim o hálito podre do fruto da Árvore do Conhecimento. Em silêncio, era isolado do mundo. Falando, o mundo preferia isolar-se de mim.

A árvore que era do Conhecimento, não o fruto. Antes do fruto, nada era certo ou errado, tudo simplesmente era. Também não havia nada de errado no fruto em si, mas fomos incapazes de engolir o fruto por inteiro. Tudo era inteiro, antes da primeira mordida. Tudo era completo na sua objetividade. Mas não pudemos engolir o fruto por inteiro. Tivemos que rasgá-lo em pedaços, quebrar com os dentes a sua integridade, digerir nojentamente o que lhe compunha. Daí a ilusão. Do Conhecimento que originou o fruto, criou-se a ilusão.

Como fomos longe! O fruto proibido nos embriagou tanto que nos juntamos para corrigir os pretensos defeitos do mundo juntos, e passamos a dar sentido ao sentido dos outros - com a repreensão de quem não é capaz de olhar para si mesmo de tão embriagado - e nos enganamos de sentido, e fomos no sentido errado, e em vez de matar a ilusão, matávamo-nos uns aos outros. Queimávamos uns aos outros desejando queimar com eles o que estava queimando em nós, nos poucos momentos em que a realidade inicial, o Conhecimento, tentava brotar e dizer que tudo era ilusão.

Chegamos ao ponto de não saber viver sem o pecado. A alucinação foi tão longe que nos perverteu inteiros, e se não há religião, há o corpo que tenta se dizer imperfeito, e iludidos, tentamos curá-lo. Não há cura para o corpo. Não há correção. Não há melhora, porque não existe pecado.

O fruto se revira no meu estômago e tenta sair, tudo o que entra tenta sair - nem sempre consegue, somos todos prisões - e o vomito. Perdem-se os adjetivos, perdem-se os erros, perdem-se os nomes. Ganha-se um pouco de lucidez (o fruto já foi digerido em parte, já corre no meu sangue a maldição de querer nomear tudo como certo e errado, permitido ou não permitido). Minha consciência fica vaga e lenta, e estou absorvido em observar sem nomear o que vejo. O que vejo, aliás, agora faz parte de mim. Regrido a quando era perfeito (por desconhecer a alucinação do imperfeito), e tudo é uma coisa só.

Mas sou homem, e sou fraco, e estou sem alimento. Não conheço nada além do fruto. Me entrego a ilusão, viciado que sou. A fome me faz animal, desesperado por alimento a ponto de pular na jugular de qualquer coisa que passe a minha frente. Vou até a Árvore, tomo do fruto e dou mais uma mordida. Volto a falar mais do que devia.

À espreita, uma serpente me sorri.
Por Flávio Voight às 12:55 AM :: E-mail :: 8 Comente Abertamente :: permalink


O velho Paço

5.6.09
Ficava numa praça perdida entre outras tantas praças da grande cidade. Estava lá desde 1800 e qualquer coisa. O Paço era só mais uma construção antiga entre todas as outras que sobreviveram lá e cá.

Viu gerações nascerem e morrerem. Recebeu tanta gente, no seu tempo áureo - disputadíssimo, local em que pessoas medíocres recebiam honras mais ou menos. Pessoas não tão importantes assim, que adoravam o sentimento de importância que vinha de estar nos seus salões.

Perdeu a glória aos poucos. A sua imponência parecia zombar da sua inutilidade. A cidade se acostumou com o trambolho de concreto na praça. Construiu trambolhos maiores, que roubaram a importância do velho paço.

Recebia apenas a visita do vento frio que entrava por suas vidraças quebradas, que passava assobiando canções de abandono. Volta e meia abrigava um mendigo que conseguia dormir mesmo com o barulho e frio trazidos pelo vento.

Suas gigantescas paredes externas passaram a escorar prostitutas cansadas de se apoiar nos estreitos saltos durante a noite. Às vezes, recebiam a honra de um bêbado mijando. Ratos passavam por lá e cá, freqüentadores assíduos.

O Paço assistia. Viu pessoas brigando por coisas que também viu serem esquecidas. Viu, enojado, a pequena praça que lhe fazia companhia ganhar um calçamento feio de petit-pavet.

Viu as casas que lhe cercavam darem lugar a edifícios. Viu o tempo fazer seus remendos e estragos em tudo o que lhe rodeava - e em si mesmo. A paisagem mudou, mas permanecia o Paço, como um velho que não consegue morrer mesmo se sentindo um estorvo para os que ficaram.

Até que um dia um pequeno visionário qualquer se compadeceu do Paço. Convenceu um, convenceu outro, e começou a restauração. As paredes de madeira podre, do lado de dentro, foram todas quebradas e reconstruídas com um tijolo fajuto, que daria um ar mais histórico.

O Paço foi percebendo que era velho, não histórico. Pra ser histórico, precisava mudar. Viu suas lajes estupradas por encanamento e fiação elétrica. Viu as vidraças quebradas serem trocadas por outras de acrílico, semelhantes às antigas mas mais baratas. Recebeu pintura nova. Quadros valiosos.

Foi reinaugurado com pompa. A iluminação nova foi caríssima, e o Paço nunca pareceu tão imponente - nem nos tempos em que era novidade. As pessoas que passavam por ali sem notar o velho, notaram o histórico. Abismadas. Tiravam fotos, achavam lindo.

Voltou a glória. Mas, embalsamado vivo, o Paço não achou mais nada. Ganhou a eternidade, pelo menos por algum tempo. Mas perdeu a alma.
Por Flávio Voight às 2:17 AM :: E-mail :: 14 Comente Abertamente :: permalink